31 de julho de 2025
JOÃO PESSOA

Primeira bebê gerada por homem trans no SUS da Paraíba; casal destaca que "família tem a ver com amor"

Iara nasceu no Hospital da Mulher, em João Pessoa; pais contam desafios da gestação, interrupção da terapia hormonal e defendem respeito à diversidade familiar

Por Redação
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Gisele e Daniel na hora do parto. - Foto: Divulgação/Governo da Paraíba

A pequena Iara entrou para a história ao se tornar a primeira bebê gerada por um homem trans a nascer pelo Sistema Único de Saúde (SUS) na Paraíba. O parto aconteceu no Hospital da Mulher, em João Pessoa, e marcou a realização do sonho do casal formado por Gisele Castro, uma mulher trans, e Daniel Valentim, um homem trans, moradores de Esperança, no Agreste paraibano.

Em entrevista ao g1, Gisele afirmou que a história da família também busca combater preconceitos e mostrar que o amor é a base de qualquer lar.

"A gente quer falar para a sociedade que família tem a ver com amor, respeito e união. Então, se você tem esses três ingredientes, você tem uma família", declarou.

O casal se conheceu pela internet há quatro anos. Gisele é médica veterinária e professora universitária, enquanto Daniel é estudante de Agronomia. O desejo de ter um filho era antigo. Após uma primeira tentativa sem sucesso em 2023, a gravidez foi confirmada no fim de 2025.

Interrupção da terapia hormonal

Para tornar a gestação possível, ambos precisaram interromper temporariamente a terapia hormonal utilizada no processo de transição de gênero.

Segundo Gisele, a suspensão do tratamento provoca mudanças físicas que podem desencadear disforia de gênero, caracterizada pelo desconforto entre a identidade de gênero e as características corporais.

Ela explica que, apesar das alterações causadas pelos hormônios, pessoas trans não são necessariamente estéreis.

"Casais trans não são estéreis. Essa modificação pode ser revertida com acompanhamento médico. Foi o que aconteceu com a gente", explicou.

Escolha pelo Hospital da Mulher

Durante a gestação, Daniel iniciou o pré-natal em Campina Grande. No entanto, após ser diagnosticado com trombose e receoso de sofrer preconceito durante o parto, o casal decidiu buscar atendimento em João Pessoa.

A escolha pelo Hospital da Mulher ocorreu porque a unidade já realiza procedimentos destinados à população trans e possui equipes treinadas para atendimento humanizado.

Com apoio do Ambulatório de Saúde Integral para Travestis e Transexuais Fernanda Benvenutty, o casal conseguiu transferir o pré-natal no oitavo mês de gestação.

Segundo Daniel, a expectativa foi plenamente atendida.

"O carinho dos profissionais, o acolhimento e a segurança confirmaram que fizemos a escolha certa. Foi um parto cercado de amor e respeito."

Nascimento celebrado pela família

A chegada de Iara também foi comemorada pelos familiares. De acordo com Gisele, tanto a mãe dela quanto a mãe de Daniel acolheram a gravidez e participaram desse momento especial.

Para o casal, compartilhar a própria história ajuda a mostrar que a formação de uma família vai muito além da configuração tradicional.

Eles defendem que respeito, afeto e cuidado são os pilares fundamentais para criar uma criança, independentemente da identidade de gênero dos pais.