31 de julho de 2025
"É amor, é respeito", diz esposa

Homem trans dá à luz primeira bebê na rede pública da Paraíba

Daniel Valentim e Gisele Castro contam como foi a gravidez de risco, a busca por um hospital acolhedor e a chegada da pequena Iara, no Dia do Orgulho LGBT

Por Redação*
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Gisele e Daniel na hora do parto - Foto: Divulgação/Governo da Paraíba

Tem nascimento que carrega um significado maior do que a própria alegria de uma nova vida chegando. Foi o caso da pequena Iara, primeira bebê gerada por um homem trans dentro da rede pública de saúde da Paraíba. Filha de Daniel Valentim e Gisele Castro, mulher trans, a menina nasceu de uma gravidez planejada e acompanhada de perto pelo casal desde o início.

Neste domingo (28), Dia do Orgulho LGBT, Gisele conversou com o g1 sobre o significado desse momento e sobre o que é construir uma família fora dos padrões mais tradicionais. "A gente quer falar para a sociedade que família tem a ver com amor, respeito e união. Então, se você tem aí esses três ingredientes, você tem uma família", resumiu.

Uma gravidez de risco e a busca por um lugar seguro

Moradores da cidade de Esperança, Daniel e Gisele começaram o pré-natal em Campina Grande. Já no primeiro mês, a gestação foi classificada como de alto risco, depois que Daniel foi diagnosticado com trombose — uma alteração sanguínea comum em gestantes. O casal também contava com o acompanhamento do ambulatório para pessoas transexuais vinculado ao Hospital de Trauma de Campina Grande.

Mesmo com todo esse cuidado médico, Daniel sentia um desconforto que ia além da gravidez em si: o medo do preconceito, por ser o primeiro homem trans gestante atendido naquela unidade. Essa insegurança cresceu quando ele descobriu que a obstetra responsável pelo pré-natal não faria o parto — essa tarefa ficaria a cargo do médico plantonista do dia, alguém que ele nem conhecia.

Foi esse receio que levou o casal a procurar outras opções. Eles descobriram que o Hospital da Mulher, em João Pessoa, já realizava cirurgias de mastectomia em homens trans encaminhados pelo Espaço LGBT Clementino Fraga — um sinal de que a equipe da unidade já tinha experiência em acolher esse público. O relato positivo de uma amiga ajudou a confirmar a escolha pela maternidade, inaugurada há pouco mais de um ano.

Com apoio da coordenação do Espaço LGBT de João Pessoa, o casal conseguiu uma vaga e transferiu o pré-natal para a capital já no oitavo mês de gravidez. O médico responsável avaliou os exames feitos em Campina Grande, confirmou que a saúde de Daniel estava em ordem e garantiu que a unidade estava preparada para recebê-lo da forma adequada.

A decisão se mostrou certa. Segundo Gisele, a experiência no Hospital da Mulher superou as expectativas, sendo acolhedora e livre de preconceito por parte de toda a equipe.

Daniel resumiu bem o que esse cuidado significou para a família: "Apesar de ter tido um pré-natal muito tranquilo em outra unidade, eu sentia que o lugar ideal para o nascimento de Iara era o Hospital da Mulher, não apenas pela estrutura. O carinho dos profissionais, o acolhimento, a segurança com a qual todo o procedimento foi conduzido apenas confirmaram esse sentimento. Foi um parto cercado de amor e respeito, um momento que jamais vamos esquecer."

Os desafios de uma gestação trans

Daniel e Gisele se conheceram há cerca de quatro anos, e o desejo de ter um filho já existia havia bastante tempo. A primeira tentativa veio em 2023. Gisele explica que, para um casal trans engravidar, é preciso interromper o tratamento hormonal — uma decisão que traz consequências emocionais importantes.

"No meu caso, uma mulher trans toma um hormônio feminilizante. E, no caso dele, homem trans, toma um hormônio masculinizante. Aí é muito ruim, por um certo lado, porque, quando a gente quer engravidar, a gente tem que parar com esses hormônios. E aí as características masculinas e femininas voltam nos nossos corpos, o que traz algo chamado de disforia, que é um desconforto", explicou.

Depois da primeira tentativa, o casal seguiu tentando novamente, e a gravidez finalmente aconteceu no final de 2025. Agora, em junho de 2026, a pequena Iara chegou, trazendo alegria para toda a família.

"Nossa família ficou muito feliz. Então, a gente teve um acolhimento de grande parte da família, o que nos deixa bastante contentes também. A minha sogra, a mãe de Daniel, foi a primeira pessoa a visitar; a minha mãe também acolheu muito bem", contou Gisele.

Para o casal, a chegada de Iara representa mais do que a realização de um sonho pessoal: é a prova de que uma família se constrói com afeto e respeito mútuo, independentemente do caminho percorrido para chegar até ela.

Com G1.