31 de julho de 2025
saúde

Um em cada quatro brasileiros não sabe que o câncer pode ser prevenido

Mais da metade da população não sabe que sedentarismo é fator de risco

Por Redação*
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Mais da metade da população não sabe que sedentarismo é fator de risco - Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

Um a cada quatro brasileiros desconhece que o câncer é uma doença que pode ser evitada por meio de medidas preventivas. O dado consta no relatório "Mais Dados Mais Saúde - Percepções da população brasileira sobre fatores de risco para o câncer", divulgado nesta quarta-feira (3). O levantamento inédito mapeou o nível de conhecimento da população sobre a relação entre o desenvolvimento de tumores e hábitos cotidianos, como tabagismo, alcoolismo, sedentarismo e consumo de ultraprocessados.

Segundo projeções do Instituto Nacional de Câncer (Inca), o Brasil deve registrar cerca de 781 mil novos diagnósticos de câncer a cada ano no triênio de 2026 a 2028. O número representa uma alta de 10,9% na comparação com o período anterior, impulsionada de forma combinada pelo envelhecimento populacional e pela manutenção de estilos de vida pouco saudáveis.

A pesquisa foi conduzida pelas organizações Umane e Vital Strategies, contando com o apoio institucional do Instituto Devive e a parceria técnica do Inca. Ao todo, as equipes entrevistaram 6,5 mil pessoas em todas as unidades federativas do país e no Distrito Federal.

Políticas públicas ditam o nível de consciência


O relatório evidencia que os fatores de risco alvo de campanhas de conscientização massivas ao longo das últimas décadas são os mais assimilados pela população. O tabagismo lidera o índice de percepção, com 90,5% dos adultos cientes de que o fumo causa câncer. A herança genética (89,4%) e a exposição solar excessiva e sem proteção (88,3%) aparecem logo em seguida.

Em contrapartida, os riscos atrelados à alimentação e ao sedentarismo são amplamente subestimados. Menos da metade dos entrevistados (48,3%) reconhece a falta de atividade física como um fator de risco. O consumo de embutidos (como presunto e salsicha) e de alimentos ultraprocessados (como macarrão instantâneo, salgadinhos e sorvetes) é associado à doença por 70,7% e 65,6% dos brasileiros, respectivamente. Já a ingestão de carnes vermelhas é compreendida como um agravante por somente 27,5% da população. Outra lacuna identificada é que 40% das pessoas ignoram o papel do aleitamento materno como fator de proteção contra o câncer de mama.

Luciana Grucci Moreira, chefe da Divisão de Pesquisa Populacional do Inca, ressalta que o sucesso no reconhecimento do cigarro como vilão se deve a um conjunto estruturado de políticas públicas, que incluiu restrições de consumo em locais fechados, taxação de impostos e avisos obrigatórios nas embalagens. A especialista defende que o país precisa avançar em estratégias regulatórias semelhantes para os demais fatores, alertando ainda que a alimentação saudável não depende apenas de informação, mas de políticas que garantam renda, segurança e acesso a produtos frescos.

Jovens são os que menos buscam mudar hábitos de risco


O comportamento prático dos brasileiros em relação à saúde também foi avaliado. Enquanto cerca de 53% dos consumidores de bebidas adoçadas e 45% dos que consomem ultraprocessados relataram tentativas de diminuir a ingestão, o consumo de carne vermelha segue consolidado: 45% comem o alimento regularmente e não pensam em reduzir as porções. Do lado positivo, 86,3% afirmaram manter o consumo regular de frutas, legumes e verduras.

O recorte por faixa etária ligou o sinal de alerta para a população jovem. Os entrevistados de até 24 anos lideram o grupo dos que mantêm hábitos nocivos sem qualquer intenção de mudança. Nessa idade, 32,3% afirmam que não pretendem reduzir os ultraprocessados e 24,4% dizem o mesmo sobre os refrigerantes. O padrão se repete com as bebidas alcoólicas, substância ligada diretamente a pelo menos oito tipos de tumores: 16,9% dos jovens que bebem não planejam diminuir o consumo, taxa bem superior aos 8,7% registrados na faixa de 25 a 59 anos.

Desigualdade social impacta na prevenção


A pesquisa expôs um abismo socioeconômico no que diz respeito aos cuidados preventivos. Os cidadãos de maior poder aquisitivo demonstram maior nível de informação e ferramentas para agir. Enquanto 59,6% das pessoas com renda igual ou superior a R$ 10 mil associam o sedentarismo ao câncer, o índice cai para 45% entre os que ganham até R$ 2 mil.

O mesmo padrão foi identificado no controle do peso corporal, sabendo que a obesidade é apontada como risco por 54,1% dos entrevistados gerais. Entre aqueles que reconhecem estar acima do peso ideal, mais de 40% das pessoas com renda acima de R$ 3 mil afirmaram estar adotando medidas práticas para emagrecer. No grupo que recebe menos de R$ 2 mil, esse engajamento cai para 22,9%.

Especialistas da área de saúde pública reforçam que os resultados servem como um mapa estratégico essencial. Os dados devem balizar o direcionamento das próximas campanhas de comunicação governamentais e a criação de ambientes urbanos que facilitem a prática de exercícios e a escolha por hábitos mais saudáveis pela população de todas as classes sociais.

*com informações da Agência Brasil