Pnud aponta desigualdade racial e diz que futuro econômico do Brasil depende de jovens negros
Estudo mostra avanço do desenvolvimento humano no país, mas destaca que desigualdade racial ainda limita crescimento econômico e social
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O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) Brasil alertou, nesta terça-feira (26), que o futuro econômico e social do país depende diretamente da inclusão da juventude negra nas políticas públicas de desenvolvimento. A avaliação foi feita durante a divulgação do Radar IDHM 2026, levantamento que mede o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) no Brasil.
Segundo a coordenadora da Unidade de Desenvolvimento Humano do Pnud Brasil, Betina Barbosa, o país enfrenta um desafio demográfico que exige maior investimento na população jovem negra.
“Quem sustentará o Brasil do futuro é um jovem negro, não é um jovem branco”, afirmou a especialista durante coletiva em Brasília.
De acordo com Betina, a inclusão da população negra no processo de desenvolvimento não se trata de uma questão ideológica, mas de viabilidade econômica e social.
“É fundamental colocar essas pessoas dentro da equação do desenvolvimento. Não por romantismo, mas pela viabilidade do país. Sem colocar essas pessoas nessa equação do desenvolvimento, o país não se viabiliza”, acrescentou.
Desigualdade racial ainda é expressiva
Os dados do Radar IDHM mostram que, apesar da melhora nos indicadores ao longo dos últimos 13 anos, a desigualdade entre pessoas brancas e negras ainda permanece significativa no Brasil.
Enquanto o IDHM da população branca avançou de 0,804 em 2012 para 0,851 em 2024, mantendo classificação de desenvolvimento humano muito alto, o índice da população negra passou de 0,694 para 0,774 no mesmo período, permanecendo no nível de alto desenvolvimento.
Embora a distância tenha diminuído, o Pnud avalia que o “fosso” entre os grupos ainda é relevante.
“As desigualdades brasileiras ainda são regionais, mas os dados mostram que todos melhoraram. Melhoraram os brancos e melhoraram os negros, mas o tamanho do fosso continua o mesmo”, explicou Betina Barbosa.
Segundo a especialista, os ganhos futuros do país dependerão principalmente da melhora das condições da população negra, maioria em regiões como Norte e Nordeste.
“Estou falando de 80% da população da Região Norte e de 76% do Nordeste. Se tenho políticas públicas voltadas para esses segmentos, diminuo desigualdades regionais”, afirmou.
Educação impulsiona avanço da população negra
O principal fator responsável pelo crescimento do IDHM da população negra foi a educação, seguida pelos avanços na saúde.
O estudo aponta que políticas públicas como o Bolsa Família ajudaram a ampliar o acesso à escola e reduzir desigualdades educacionais, especialmente entre famílias de menor renda.
Mesmo assim, o Pnud alerta que o próximo desafio será garantir políticas voltadas à geração de renda e inclusão produtiva.
“Qual é a base da economia do futuro do Brasil? Como vamos organizar a economia monetária brasileira para que ela seja inclusiva?”, questionou Betina.
Mulheres negras ainda enfrentam mais desigualdades
O levantamento também mostra diferenças importantes entre gênero e raça.
O IDHM dos homens brasileiros é de 0,802, enquanto o das mulheres ficou em 0,798.
Quando analisada a desigualdade racial, os números evidenciam diferenças ainda maiores: o IDHM da população branca é de 0,851, acima da média nacional (0,805), enquanto o da população negra permanece em 0,774.
Segundo o chefe do Pnud no Brasil, Claudio Providas, mulheres negras ainda vivem uma realidade estatisticamente muito diferente da vivida por homens brancos.
“Uma mulher negra brasileira ainda vive em um país diferente daquele em que vive um homem branco brasileiro, não metaforicamente, mas estatisticamente”, afirmou.
Diferenças aparecem na renda e expectativa de vida
As desigualdades também são refletidas na expectativa de vida e na renda média da população.
De acordo com o estudo, uma pessoa branca nascida no Rio Grande do Sul tem expectativa média de vida de 81 anos, enquanto uma pessoa negra nascida no Amapá vive, em média, até os 73 anos.
Na renda, o contraste também é expressivo: uma pessoa branca do Distrito Federal possui renda média de R$ 1.987, enquanto uma pessoa negra do Maranhão recebe, em média, R$ 440,66.
Brasil avançou, mas desigualdade ainda reduz desenvolvimento
O estudo também apresentou o IDHM ajustado à desigualdade (IDHMAD), indicador que mede como as diferenças sociais impactam o desenvolvimento real da população.
Em 2012, o Brasil tinha índice de 0,566, considerado baixo desenvolvimento humano. Já em 2024, o número avançou para 0,641, colocando o país no nível médio de desenvolvimento ajustado à desigualdade.
Segundo o Pnud, isso mostra que parte importante da população ainda permanece distante dos avanços registrados pela média nacional.