31 de julho de 2025
rebeliões

20 anos dos Crimes de Maio: "A rua estava vazia, não tinha gente", relembra moradora

Relatórios apontam mortes, falhas em investigações e mudanças na atuação do crime organizado após a crise de 2006

Por Redação
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Ataques deixaram 564 mortos entre os dias 12 e 21 de maio de 2006 - Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Os ataques ocorridos em maio de 2006 em São Paulo completam 20 anos. A crise começou na sexta-feira, 12 de maio, após a transferência de 765 presos para a Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, entre eles Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, apontado como liderança do Primeiro Comando da Capital (PCC). A decisão da Secretaria de Administração Penitenciária desencadeou rebeliões em 74 unidades prisionais e ataques contra agentes públicos, delegacias, viaturas e prédios públicos.

O pesquisador Bruno Paes Manso, do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP), afirma que a transferência motivou a ordem para os ataques. Nos dias seguintes, a ofensiva deixou dezenas de mortos e espalhou medo pela capital paulista e cidades do interior. Relatos da época descrevem ruas vazias, suspensão de aulas, fechamento de estabelecimentos e interrupção do transporte público após boatos sobre ataques e toques de recolher.

A produtora cultural Mônica Trindade Carneiro viveu o período durante o nascimento da filha, em 17 de maio. Moradora da Avenida Paulista, ela precisou buscar um táxi durante a madrugada para chegar à maternidade. No trajeto, o carro foi cercado por policiais militares em uma base da corporação, em meio à tensão provocada pelos ataques contra agentes de segurança.

Segundo o relatório São Paulo sob Achaque: Corrupção, Crime Organizado e Violência Institucional em Maio de 2006, elaborado pela Clínica de Direitos Humanos da Faculdade de Direito de Harvard e pela organização Justiça Global, a transferência dos presos não foi o único fator da crise. O estudo aponta corrupção policial, falhas investigativas e problemas no sistema prisional como elementos ligados aos ataques.

Após o Dia das Mães, começou a reação policial. De acordo com pesquisadores e defensores públicos, grupos formados por policiais e integrantes de grupos de extermínio passaram a atuar em bairros periféricos. O Laboratório de Análises da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) registrou 505 mortes de civis e 59 mortes de agentes públicos durante os confrontos. Relatórios apontam indícios de execução em parte dos casos.

Dados do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) indicam que ao menos 2.359 tiros foram disparados durante o período. A maioria das vítimas era formada por homens de até 35 anos, pretos e pardos. Apenas uma parcela tinha antecedentes criminais. Relatórios da Secretaria Nacional dos Direitos Humanos apontaram que muitos corpos apresentavam tiros na cabeça e pelas costas.

Entre os casos citados está o assassinato de Ana Paula, grávida de 20 anos, morta ao lado do marido em Santos. A mãe dela, Vera Lúcia Gonzaga dos Santos, participou da fundação do movimento Mães de Maio, criado para cobrar investigação e responsabilização pelas mortes ocorridas durante os ataques e as ações policiais.

Especialistas afirmam que houve falhas nas investigações. Segundo o ouvidor das Polícias do Estado de São Paulo, Mauro Caseri, a maior parte dos inquéritos envolvendo policiais foi arquivada. Relatórios também apontam que os casos envolvendo mortes de agentes públicos tiveram maior índice de esclarecimento do que os assassinatos de civis.

O diretor da Conectas Direitos Humanos, Gabriel de Carvalho Sampaio, define os Crimes de Maio como um massacre marcado por execuções sumárias e desaparecimentos. Para ele, os episódios revelam problemas estruturais na política de segurança pública e na responsabilização de agentes do Estado.

O fim dos ataques coincidiu com um encontro entre representantes do governo paulista e Marcola, segundo estudos sobre o caso. O então governador Cláudio Lembo negou acordo com o PCC, mas afirmou que a autorização para uma conversa entre o líder da facção e sua advogada contribuiu para o encerramento da crise.

Pesquisadores apontam que, após 2006, o PCC alterou sua estratégia de atuação. Em vez de confrontos diretos contra forças de segurança, a facção passou a ampliar atividades ligadas ao tráfico internacional de drogas e à infiltração em setores econômicos e financeiros.

A Secretaria de Administração Penitenciária informou que 15 agentes penitenciários morreram durante os ataques. Segundo a pasta, desde a criação da Polícia Penal, em 2025, não foram registradas rebeliões em presídios paulistas. O governo estadual também destacou expansão de vagas prisionais, automação das unidades e fortalecimento de grupos de intervenção.

Já a Secretaria da Segurança Pública declarou que todas as mortes decorrentes de intervenção policial são investigadas pela Polícia Civil, corregedorias, Ministério Público e Justiça. A pasta afirma ainda que realiza ações de redução da letalidade policial e investimento em equipamentos de menor potencial ofensivo.