31 de julho de 2025
TRABALHO

Trabalho doméstico no DF depende de mulheres do Entorno e escancara desigualdade

Levantamento do Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal aponta forte dependência de trabalhadoras do Entorno, com baixa renda, informalidade e longos deslocamentos

Por RAYANY FRANÇA
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Trabalho doméstico no DF é sustentado por mulheres do Entorno - Foto: Reprodução/IPE-DF

O trabalho doméstico no Distrito Federal depende fortemente de mulheres que vivem fora da capital. Em 2024, cerca de 117 mil pessoas atuavam no setor, segundo dados da Pesquisa de Emprego e Desemprego da região de Brasília, elaborada pelo Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal em parceria com o DIEESE.

Do total, aproximadamente 50 mil trabalhadoras moravam em cidades do Entorno do DF, como Águas Lindas de Goiás, Valparaíso de Goiás e Luziânia. Destas, cerca de 35 mil precisavam se deslocar diariamente para o Distrito Federal em busca de trabalho. Outras 67 mil residiam no próprio DF.

Na prática, atividades essenciais da rotina das famílias, como limpeza, preparo de alimentos e cuidados domésticos, dependem diretamente dessas trabalhadoras, muitas delas submetidas a longos deslocamentos diários e condições precárias de mobilidade.

Esse é o caso da diarista Tania Dias de Souza, de 36 anos, moradora de Valparaíso de Goiás e mãe de dois filhos. Ela trabalha na Asa Sul, onde há maior oferta de empregos e melhor remuneração. Segundo relata, a diferença salarial entre o Entorno e o DF pode chegar a quase um salário mínimo.

Para garantir renda, ela enfrenta uma rotina intensa. Sai de casa por volta das 6h30 da manhã e leva cerca de duas horas para chegar ao trabalho, dependendo do trânsito e de eventuais acidentes. O trajeto inclui ônibus lotados e longos períodos de deslocamento.

Entre as trabalhadoras que vivem no Distrito Federal, praticamente todas (99,7%) trabalham próximas de casa, o que evidencia ainda mais a desigualdade no tempo de deslocamento entre quem mora no DF e quem vem do Entorno.

Além das dificuldades de transporte, há a instabilidade no vínculo de trabalho. Em 2024, cerca de 47 mil trabalhadoras tinham carteira assinada, enquanto aproximadamente 50 mil atuavam como diaristas, sem registro formal, o que implica menor proteção social e renda variável.

O rendimento médio mensal no setor gira em torno de R$ 1,6 mil. Mais da metade das trabalhadoras recebia até um salário mínimo, sendo essa proporção ainda maior entre as moradoras do Entorno.

A falta de proteção previdenciária também é expressiva: mais de 64 mil trabalhadoras não contribuíam para a Previdência Social, o que reduz o acesso a benefícios como aposentadoria, auxílio-doença e salário-maternidade.

Mesmo diante das dificuldades, o trabalho doméstico segue como principal fonte de renda para muitas famílias. Em 2024, quase metade das trabalhadoras era responsável direta pelo sustento da casa, evidenciando o peso econômico e social dessa atividade na região.

Nesse cenário, a rotina de longos deslocamentos e jornadas intensas faz parte do dia a dia de quem sustenta não só a própria família, mas também o funcionamento de milhares de lares no Distrito Federal.