31 de julho de 2025
JORNAL DA FRANCÊS

Voçoroca na Mata do Rolo, em Rio Largo, cresceu sete vezes em 10 anos e agora ameaça casas e comércio

Buraco que nasceu do desmatamento se expande para mais de 7 mil m²; obra de drenagem está parada, e comerciantes perderam 80% do faturamento com interdição de rua; Prefeitura diz que não há risco iminente

Por Redação
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Voçoroca avança há mais de 10 anos e assusta moradores em Rio Largo - Foto: Cimadec/ Defesa Civil Maceió

O município de Rio Largo, na região metropolitana de Maceió, convive há mais de uma década com uma ferida aberta no solo: a voçoroca do bairro Mata do Rolo. O que começou como um processo de erosão acelerado pelo desmatamento hoje se transformou em um buraco de mais de 7 mil metros quadrados – sete vezes maior do que os 990 m² registrados há dez anos. O Jornal da Francês esteve no local e conversou com moradores e comerciantes que vivem sob a ameaça constante de deslizamentos, alagamentos e perda de suas casas. Com a chegada do período chuvoso em Alagoas (abril a agosto), o medo só aumenta. Enquanto isso, uma obra de drenagem iniciada como medida paliativa está parada, com canos expostos e sem previsão de conclusão.

A voçoroca – uma erosão profunda causada pelo escoamento concentrado da água – está localizada na região da Mata do Rolo. Gabriela Garrido, repórter do Jornal da Francês, descreve o cenário como uma “tragédia anunciada”. “Um buraco que nasceu do desmatamento e que hoje se expande como uma resposta da própria natureza, como se o que foi tirado dela agora fosse cobrado”, afirmou. Moradores ouvidos pela reportagem relatam noites de insônia e pânico durante as chuvas.

Medo e abandono
Viviane Justino, moradora da área, disse que a Defesa Civil do município reconheceu o avanço da voçoroca, mas não dá retorno à população. “Faz medo sim, porque já avançou. Saiu no jornal que a Defesa Civil postou que essa voçoroca tá avançada e ele [o prefeito] não se pronuncia. A população que está sendo afetada está esperando a resposta.” Ela lembra que a mata ali era enorme e que, se preservada, o desastre jamais teria acontecido.

Dona Maria do Ó, que mora a poucos metros do buraco, não segura as lágrimas. Ela teme perder a casa onde construiu a vida. “Tá muito difícil para nós. Quando chove muito, a gente já fica abrindo a porta para olhar a casa dos vizinhos. Na chuva de domingo, entrou água na minha casa porque fizeram meu fio mais alto e a água não tem como sair. Volta para dentro.” Questionada sobre seu maior medo, responde: “É esse buraco tomar conta e essas casas irem abaixo.” Maria conta que o sofrimento na rua já dura mais de dez anos.

Dados alarmantes
De acordo com a reportagem, a voçoroca aumentou de 990 m² para mais de 7.000 m² em uma década. A expansão é agravada por dois fatores: o lançamento de esgoto na região, que pode aprofundar ainda mais a erosão, e a quadra chuvosa, que acelera o desmoronamento das bordas. Um morador idoso, de mais de 80 anos, já desocupou a casa por conta própria depois de sentir tremores durante a chuva e ver um pedaço do barranco cair.

Rua interditada e prejuízo no comércio
A interdição da via principal para evitar acidentes trouxe outro problema: o comércio local quebrou. Seu Andrade, comerciante da região, conta que perdeu cerca de 80% do faturamento desde o bloqueio. “O motivo é a obra mal feita que fizeram aqui. Tá prejudicando a população todinha. A venda caiu mais de 80%. Não tem movimento na rodovia. As vendas só pelo WhatsApp. Para fazer entregas, temos que rodear um percurso danado, cheio de buracos.” Ele também critica a qualidade dos desvios improvisados.

Transporte público e segurança
Com a rua principal interditada, quem depende de ônibus precisa esperar em vias alternativas, muitas vezes mais perigosas e mal iluminadas. Gabriel Cândido, morador, afirma: “A gente tá sendo negligenciado. Por mais que a Defesa Civil diga que está trabalhando, eles não estão. A obra está parada. À noite, poucos guardas municipais aparecem. Uma mulher que descer por aqui corre risco de ser assaltada, estuprada. A gente não pode nem sair na porta.”

Críticas à gestão pública
Mima Menevaldo, que acompanha o problema há anos, aponta dedo contra sucessivas administrações. “Eu acredito que isso aqui foi provocado pela gestão anterior, e a gestão atual continuou com o mesmo erro, fazendo paliativo. Tem uma empresa de Pernambuco contratada, mas com pouquíssimas pessoas trabalhando. Se existe contrato, era para estar fazendo reparo, mas o que a gente vê são carros e funcionários da prefeitura.”

Nota da Prefeitura de Rio Largo
Em resposta ao Jornal da Francês, a Prefeitura de Rio Largo informou que está cumprindo o relatório técnico do solo e executando as medidas necessárias para a recuperação da área. Entre as ações já realizadas: restabelecimento do sistema de drenagem (etapa fundamental para conter o avanço da erosão) e previsão de recomposição dos taludes e da vegetação. A Prefeitura afirmou que, com as ações em andamento, “não há perigo iminente no momento” e que “não há risco de vida ou necessidade de remoção das famílias”. O acompanhamento é diário, segundo o comunicado, e a Defesa Civil Municipal segue monitorando o local. A gestão prometeu adotar novas providências imediatamente se houver qualquer alteração no cenário.