31 de julho de 2025
inovador

Pesquisa da UFPE usa técnica inédita para desvendar a formação geológica de Fernando de Noronha

Estudo coordenado pela geóloga Carla Joana Barreto combina estratigrafia vulcânica e magnética para reconstruir a história do arquipélago; projeto está em fase final e termina em 2026

Por Redação
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Estudo coordenado pela geóloga Carla Joana Barreto combina estratigrafia vulcânica e magnética para reconstruir a história do arquipélago; projeto está em fase final e termina em 2026 - Foto: Acervo pessoal

Um grupo de pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) desenvolve um estudo com abordagem inovadora para compreender como se formou o arquipélago de Fernando de Noronha. A pesquisa, coordenada pela geóloga Carla Joana Barreto, integra o grupo Vulcano e conta com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Intitulado “Estratigrafia vulcânica e magnética associadas à análise topológica das sucessões efusivas e explosivas do Arquipélago de Fernando de Noronha”, o projeto busca reconstruir a história geológica da ilha a partir de uma combinação de técnicas ainda pouco exploradas na região. O estudo está em fase final e termina em dezembro de 2026.

Trabalho de campo


O projeto teve duração de três anos, com duas etapas de campo. A primeira ocorreu no final de 2024, com dez pesquisadores de diferentes universidades. A segunda foi realizada em fevereiro de 2026, com cinco pesquisadores, todos da UFPE.

“Fazemos um trabalho de reconhecimento em campo, analisando diretamente as rochas, descrevendo suas características e coletando amostras para estudo em laboratório. Buscamos compreender a formação dessas rochas vulcânicas do ponto de vista temporal, ou seja, identificar o que veio antes e depois, e também sob o aspecto magnético”, explica Carla Barreto.

As coletas de dados ocorreram em áreas como a Enseada da Caieira, Baía do Sueste e Praia do Atalaia, onde também foram feitas imagens em 360 graus para compor um acervo virtual do arquipélago.

Tecnologia e inovação


Uma das inovações da pesquisa é o uso de tecnologias digitais para documentar as formações geológicas. Com o uso de drones, os pesquisadores estão fazendo o levantamento das praias e das formações rochosas para a criação de modelos 3D dos afloramentos e paredões, além de modelos das amostras coletadas. Todo o material será hospedado em um site que ainda está em fase de alimentação.

Outro diferencial do estudo está na aplicação da chamada magnetoestratigrafia. “Algumas rochas vulcânicas possuem minerais magnéticos que, ao se cristalizarem durante o resfriamento do magma, registram o campo magnético da Terra naquele momento. Como esse campo varia ao longo do tempo, conseguimos usar essas informações para identificar períodos e mudanças”, explica a coordenadora.

A técnica permite refinar a cronologia das erupções e compreender melhor a sequência dos eventos que moldaram o arquipélago.

Conexões com outras formações


Os primeiros levantamentos também apontam conexões com outras formações vulcânicas. “A ilha mais próxima com características semelhantes a Noronha é a ilha de Trindade, no Espírito Santo. As duas são muito semelhantes do ponto de vista do tipo de rocha. Também existem algumas rochas no Rio Grande do Norte com características parecidas, mas com idades diferentes. Isso indica uma espécie de evolução do vulcanismo”, afirma Carla Barreto.

O arquipélago representa o topo de uma cadeia de montanhas submarinas formada ao longo de uma zona de fratura no assoalho oceânico. As ilhas são compostas por rochas vulcânicas originadas em dois grandes episódios eruptivos: um mais antigo, entre 8 e 12 milhões de anos, e outro mais recente, há cerca de 1,7 milhão de anos.

Pesquisa pioneira e protagonismo local


O estudo reúne uma equipe de dez integrantes e conta com colaboração de instituições como a Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e o Observatório Nacional.

Para Carla Barreto, o principal avanço está na abordagem adotada. “Fernando de Noronha foi estudado por muitos anos, principalmente por pesquisadores de São Paulo, especialmente da USP, e havia pouca participação de pesquisadores de Pernambuco. O diferencial do nosso trabalho está no uso da estratigrafia vulcânica e da estratigrafia magnética. Por isso, nosso trabalho é considerado pioneiro nessas áreas.”

A pesquisadora também destaca a importância do protagonismo local. “É importante enfatizar o papel do grupo da UFPE nesse estudo, especialmente com esse enfoque pioneiro, evitando que esse conhecimento fique restrito a grupos de outras regiões.”

Próximos passos


Com a finalização das análises laboratoriais, a expectativa é que o estudo resulte em um modelo geológico mais detalhado sobre a formação e evolução do arquipélago, contribuindo para ampliar o entendimento científico sobre o vulcanismo em ambientes oceânicos.