Contratos suspeitos, 'folha paralela' e indicados por facção: entenda o esquema que afastou o prefeito de Cabedelo (PB)
Operação Cítrico investiga consórcio entre políticos, empresários e braço do Comando Vermelho; sogra do prefeito era advogada de chefe do crime organizado
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Uma operação da Polícia Federal deflagrada na manhã desta terça-feira (15) em Cabedelo, na Grande João Pessoa, afastou o prefeito interino Edvaldo Neto (Avante) — que havia vencido a eleição suplementar no último domingo (12). A ação, determinada pela Justiça da Paraíba, investiga um complexo esquema de corrupção e ligação de agentes políticos com o crime organizado. Batizada de Operação Cítrico, a força-tarefa é conjunta da PF, do Ministério Público da Paraíba (por meio do Gaeco) e da Controladoria-Geral da União (CGU), com mais de 20 mandados de busca e apreensão cumpridos.
As investigações apuram a existência de um consórcio entre a alta cúpula do município, empresários e integrantes da facção “Tropa do Amigão”, braço do Comando Vermelho na Paraíba. Segundo a PF, o esquema pode ter movimentado até R$ 270 milhões em contratos fraudulentos, utilizando empresas de mão de obra para infiltrar membros da facção na prefeitura e desviar dinheiro público. O desembargador Ricardo Vital de Almeida, responsável pela decisão, descreve que a Lemon Terceirização e Serviços Ltda, com sede em Olinda (PE), era o eixo central do esquema. A suspeita é que licitações eram fraudadas ou direcionadas para garantir que essa empresa fosse sempre vencedora, e que, após as contratações, os recursos fossem desviados de volta para a facção e para agentes públicos.
As fraudes ocorriam, por exemplo, com a desclassificação deliberada de empresas concorrentes — mesmo quando apresentavam propostas melhores — mediante decisões administrativas e pareceres jurídicos que davam aparência de legalidade ao processo. Uma vez fechados os contratos, as empresas terceirizadas funcionavam como mecanismo para contratar pessoas indicadas pela facção, criando uma espécie de “folha de pagamento paralela”. O dinheiro circulava por meio de salários inflados, pagamentos em espécie e uso de contas de terceiros para dificultar o rastreamento, caracterizando indícios de lavagem de dinheiro. Segundo o desembargador, a estrutura formal da administração municipal “teria sido convertida em um instrumento logístico e financeiro do crime organizado”.
Entre os alvos da operação estão familiares e pessoas ligadas à gestão de Edvaldo Neto, incluindo sua sogra, Cynthia Denize Silva Cordeiro (ex-secretária de Políticas para Mulheres), e seu cunhado, Diego Carvalho Martins (ex-chefe do Procon municipal). A decisão judicial ressalta que a participação de Cynthia não teria sido “acidental”: ela era advogada de Flávio de Lima Monteiro, conhecido como “Fatoka”, chefe da facção criminosa que está na lista dos mais procurados da Paraíba. Segundo os autos, Cynthia teria articulado a aliança inicial entre a prefeitura e a facção, e sua posição como sogra do prefeito garantiria a manutenção do pacto.
Com o afastamento de Edvaldo Neto, assume o comando da prefeitura o atual presidente da Câmara Municipal, José Pereira (Avante). O TRE-PB informou que o afastamento não foi determinado pela Justiça Eleitoral e que eventuais efeitos na diplomação — prevista para 25 de maio — serão apreciados oportunamente. A operação segue em curso, e os investigados poderão responder por fraude em licitações, desvio de recursos públicos, lavagem de dinheiro e associação criminosa.