31 de julho de 2025
violência

Moradora afirma que homem em situação de rua é alvo frequente de ataques de jovens em carros de luxo em Belém

Agressões incluem bombas, garrafas e jatos de extintor desde janeiro; MPF abriu apuração e universidade afastou envolvidos

Por Redação
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Segundo moradora, grupos de jovens vêm gravando vídeos de “trotes” com o morador de rua - Foto: Reprodução/Redes sociais

Uma moradora da região onde um homem em situação de rua foi atacado com uma arma de choque por dois estudantes de direito em Belém revelou que as agressões contra a vítima são frequentes e vêm se intensificando desde o início de 2026. De acordo com o relato da mulher, que pediu para não ser identificada, grupos de jovens chegam ao local em carros de luxo e praticam atos de violência como jogar bombinhas, garrafas e jatos de extintor de incêndio contra o homem. "Esse comportamento da vida do morador em situação de rua ser tratado como chacota em vídeo é corriqueiro, vem desde janeiro", afirmou. Ela disse ainda que as agressões já foram registradas em boletim de ocorrência.

Moradora do bairro há cerca de dez anos, ela contou que, na madrugada de 16 de fevereiro, acordou assustada com estrondos que pareciam tiros. "Vi um carro branco avançando na via e, em seguida, pessoas no veículo jogando uma garrafa com líquido em direção ao homem em situação de rua", relatou. No dia seguinte, segundo ela, os ataques se repetiram de forma ainda mais violenta: "Os carros voltaram e os ocupantes começaram a rir, filmar com celulares e cobrir o rosto com roupas. Um rapaz desceu com um extintor de incêndio e passou a direcionar o jato em cima do homem, enquanto outras pessoas registravam a cena em vídeo". A moradora afirmou que a vítima tem problemas de saúde mental, mas não costuma causar transtornos a quem não mexe com ele. "Essa situação por completo me deixou muito mal. Muito mal mesmo", desabafou.

O caso ganhou repercussão nacional após vídeos circularem nas redes sociais mostrando o momento em que um dos estudantes se aproxima da vítima, que caminhava de costas, e aplica descargas elétricas com uma arma de choque em pelo menos duas ocasiões, enquanto ambos riem. Segundo a polícia, os agressores foram identificados como Altemar Sarmento Filho, apontado como autor das agressões, e Antônio Coelho, responsável por filmar a cena. Um dos estudantes foi levado à delegacia e liberado. A instituição de ensino, o Centro Universitário do Estado do Pará (Cesupa), informou que ambos foram afastados de suas atividades acadêmicas e que um procedimento administrativo interno foi aberto. O g1 tenta contato com a defesa deles.

Altemar Sarmento Filho e Antonio Coelho, são suspeitos de ataque a homem em situação de rua. Foto: Reprodução/Redes sociais.

Testemunhas relataram que entregadores de aplicativo que passavam pelo local presenciaram a agressão e tentaram alcançar os suspeitos. Os estudantes correram para dentro do Cesupa, e os trabalhadores foram atrás, mas foram impedidos de entrar por seguranças na portaria, de forma hostil. Em nota, o Cesupa lamentou o ocorrido e afirmou que adotou medidas de colaboração com as autoridades policiais. O coordenador do curso de Direito acompanhou pessoalmente as providências na delegacia, e o Regulamento Geral e o Código de Ética e Conduta da instituição serão aplicados para definição das punições cabíveis.

Nesta segunda-feira (13), o Ministério Público Federal (MPF) abriu uma apuração para investigar o ataque, por meio da Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão (PRDC) no Pará. O procurador regional Sadi Machado determinou o envio de pedido de informações à universidade, com prazo de 48 horas para resposta, e informou que fará uma representação criminal ao Ministério Público do Estado do Pará (MPPA) para apuração na esfera penal. A Polícia Civil informou que o suspeito identificado como Altemir Sacramento Oliveira Filho foi apresentado pela Polícia Militar para depoimento na Seccional de São Brás, e que o caso será investigado.

Na Assembleia Legislativa do Pará (Alepa), a deputada Lívia Duarte (Psol) enviou ofícios ao MPPA cobrando providências da reitoria do Cesupa e pediu abertura de inquérito criminal. Ela classificou a agressão como lesão corporal ou tortura, humilhação e aporofobia — preconceito contra pessoas pobres.

"Segundo os relatos, o ato de violência gratuita teria sido perpetrado como parte de um jogo denominado 'verdade ou desafio', evidenciando um completo desprezo pela dignidade humana e pela integridade física de um cidadão em estado de extrema vulnerabilidade", argumentou. A deputada também pediu que o MPPA solicite imagens do sistema de vigilância do Cesupa e colha o depoimento da direção da universidade. A Prefeitura de Belém, por meio da Secretaria Executiva de Direitos Humanos, informou que está acompanhando o caso, acionou a Polícia Civil, notificou a instituição de ensino e afirmou que a pessoa em situação de rua já foi identificada. Até o momento, não há informações sobre o estado de saúde da vítima.