Médica que inspirou personagem de 'Emergência Radioativa' desenvolveu doença por causa do Césio-137
Maria Paula Curado foi essencial no atendimento às vítimas da tragédia de Goiânia em 1987; hoje, ela lidera acompanhamento de longo prazo dos atingidos
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Em consequência da exposição prolongada aos compostos radioativos do Césio-137 durante a tragédia que acometeu Goiânia em 1987, a médica e pesquisadora Maria Paula Curado desenvolveu um câncer. Ela é a pessoa que inspirou a personagem Paula, da minissérie Emergência Radioativa, da Netflix, que retrata o maior acidente radiológico do Brasil. Reconhecida internacionalmente, Maria Paula foi essencial no atendimento às vítimas da catástrofe. No auge da crise, ela propôs o isolamento dos contaminados no Estádio Olímpico de Goiânia — medida considerada fundamental para evitar que a radiação se espalhasse ainda mais pela cidade. Anos mais tarde, como resultado direto da exposição, ela desenvolveu a doença que hoje pesquisa.
Natural de Goiânia, a médica está hoje à frente da Superintendência Leide das Neves (Suleide), fundada em 1999, onde estruturou o acompanhamento epidemiológico de longo prazo para os atingidos pelo Césio-137. Além disso, Maria Paula atuou na Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC/OMS), na França, e também trabalha em um centro de referência oncológica em São Paulo. Sua trajetória, marcada pela dedicação às vítimas e pela própria experiência com a doença, é um dos fios condutores da série da Netflix, que devolveu o acidente de Goiânia ao centro do debate público.
Além de Paula, outros personagens da minissérie Emergência Radioativa foram inspirados em pessoas reais. Na trama, nomes fictícios se misturam a figuras que existiram, mostrando como o material radioativo se espalhou e afetou dezenas de famílias. Logo nos primeiros episódios, a narrativa mostra o momento em que dois catadores encontram uma cápsula de metal em uma clínica de radioterapia abandonada na Avenida Paranaíba. Na vida real, eles eram Roberto dos Santos Alves e Wagner Mota Pereira. Sem saber do perigo, a dupla vendeu o material a Devair Alves Ferreira, dono de um ferro-velho. Na série, ele aparece como Enevildo, interpretado por Bukassa Kabengele. Fascinado pelo brilho azulado da substância, o personagem leva o material para casa — o que contribui diretamente para a contaminação de outras pessoas.
Uma delas é Maria Gabriela Ferreira, esposa de Devair. Na série, ela aparece como Antônia, interpretada por Ana Costa. Assim como na vida real, a personagem desconfia dos riscos do material e decide levá-lo às autoridades, mas acaba contaminada e não resiste. Maria Gabriela morreu em outubro de 1987, no mesmo dia que Leide das Neves, de apenas 6 anos, que se tornou um dos casos mais marcantes do acidente. Após entrar em contato com o pó de Césio — que brilhava no escuro —, a menina ingeriu partículas radioativas ao se alimentar com as mãos contaminadas. Leide, que inspirou a personagem Celeste, morreu semanas depois e se tornou um dos símbolos da tragédia. O personagem Márcio, vivido por Johnny Massaro, é inspirado em diferentes profissionais que atuaram no combate à radiação, entre eles o físico Walter Mendes Ferreira, um dos primeiros a identificar o risco do material. Além das vítimas, a série incorpora figuras públicas como o então governador de Goiás, Henrique Santillo, e especialistas como José de Júlio Rozental, da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), mostrando a complexidade da maior emergência radioativa já registrada no país.