31 de julho de 2025
GOIÁS

Césio-137: governo monitorou 10,2 milhões de cédulas de dinheiro contaminado em Goiânia

Secretário de Saúde à época, Antônio Faleiros, relembra bastidores do maior acidente radiológico do mundo e critica ausência de apoio federal

Por Redação
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Cena da série “Emergência Radioativa”, exibida pela Netflix - Foto: Reprodução

O maior acidente radiológico do mundo fora de uma usina nuclear, ocorrido em Goiânia em setembro de 1987, teve uma face menos conhecida, mas reveladora: o monitoramento de dinheiro. Autoridades chegaram a controlar 10,2 milhões de cédulas em circulação na capital goiana. Desse total, 68 notas apresentaram algum nível de contaminação por material radioativo.

A medida foi necessária porque o pó de césio-137, retirado de um aparelho de radioterapia abandonado, circulou intensamente pela cidade antes que a origem do perigo fosse identificada. O material brilhante passou por casas, ferros-velhos, ônibus, roupas e comércios. Famílias inteiras adoeceram sem saber a causa.

À frente da Secretaria de Saúde de Goiás na época, o médico Antônio Faleiros Filho, hoje com 78 anos, relembrou os dias de crise em entrevista ao jornal O Popular. Ele afirmou que o governo estadual se sentiu “totalmente desamparado” pelo governo federal e criticou a cobertura da imprensa nacional, que classificou como sensacionalista. “Nunca escondemos uma vírgula do que estava acontecendo”, disse.

Faleiros também se emocionou ao falar dos enterros da menina Leide das Neves Ferreira, de apenas 6 anos, e de Maria Gabriela Ferreira. Os sepultamentos foram marcados por episódios de rejeição e hostilidade. “Coisa que nunca vimos na história da humanidade. Pessoas negadas ou impedidas de serem enterradas”, lamentou.

O acidente provocou o isolamento de áreas inteiras de Goiânia e a remoção de toneladas de rejeitos radioativos para Abadia de Goiás. Produtos goianos foram rejeitados em outras regiões do país, agravando os prejuízos econômicos. Faleiros avalia que a divulgação agressiva dos fatos, embora transparente, contribuiu para o pânico generalizado e para o estigma que atingiu toda a população goiana.

Depoimento de mãe de vítima

Lourdes das Neves Ferreira, mãe de Leide, disse à reportagem que ainda convive diariamente com as consequências da tragédia. “Ainda dói. Eu creio que vou carregar para o resto da minha vida. Não passa, não. Tem dia que aumenta, tem dia que é menos, mas continua do mesmo jeito”, afirmou.

O acidente com o césio-137 voltou ao centro do debate público com o lançamento da minissérie “Emergência Radioativa”, da Netflix, que reacendeu memórias dolorosas e trouxe à tona os impactos humanos, sociais e emocionais do desastre, quase quatro décadas depois.