31 de julho de 2025
BRASIL

Massacre de Realengo completa 15 anos: misoginia e bullying ainda são alvo de debate

Crime que vitimou 12 alunos no Rio de Janeiro expôs falhas na prevenção à violência nas escolas; especialistas apontam negligência em relação ao ódio contra meninas

Por Redação
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Há 15 anos, ex-aluno matou 10 meninas e 2 meninos em ataque a escola municipal - Foto: Tânia Rego/Agência Brasil

Há 15 anos, um jovem armado com dois revólveres invadiu a Escola Municipal Tasso da Silveira, no bairro de Realengo, zona norte do Rio de Janeiro, e protagonizou um dos episódios mais brutais da história da violência em instituições de ensino no Brasil. Na ocasião, ele atirou contra dezenas de estudantes, matando 12 alunos com idades entre 13 e 15 anos e ferindo outras dez pessoas. O atirador, que chegou a ser baleado por policiais, cometeu suicídio em seguida. O caso, conhecido como Massacre de Realengo, completa agora 15 anos e continua sendo objeto de análise por especialistas que apontam lacunas na interpretação do que motivou a tragédia.

Desde o ocorrido, os possíveis motivos do assassino estiveram no centro das discussões públicas. Ele deixou vídeos e uma carta de suicídão na qual alegava, entre outros fatores, ter sofrido bullying — violência psicológica e física repetitiva — durante o período em que estudou na própria escola. Essa versão foi amplamente aceita por parte das autoridades e analistas, o que levou à criação do Dia Nacional de Combate ao Bullying, celebrado em 7 de abril por meio da Lei 13.277/2016, como forma de conscientização sobre o tema. No entanto, um grupo de pesquisadoras e ativistas feministas sustenta que um ponto central do crime foi negligenciado durante todos esses anos: a misoginia, ou seja, o ódio contra mulheres e a crença na superioridade masculina.

Diversos elementos apontam para questões de gênero no ataque, a começar pela discrepância no perfil das vítimas: das 12 pessoas mortas, 10 eram meninas e apenas dois eram meninos. “As explicações que surgiram na mídia à época chegaram a ser ridículas. Morreram mais meninas porque elas correm mais devagar ou porque costumam ser boas alunas e sentar nas primeiras fileiras da sala”, lembra Lola Aronovich, pesquisadora e ativista feminista. Segundo ela, testemunhas relataram que o assassino mirava nas meninas para matar e nos meninos apenas para ferir. “Pelo que ele deixou gravado e escrito, era claramente um incel [celibatário involuntário]. Nos grupos masculinistas que eu acompanhava no Orkut na época, o massacre era comemorado e o assassino visto como um herói. Tudo aponta para um crime movido por misoginia”, acrescenta.

A pesquisadora Cleo Garcia, doutora em educação pela Universidade de Campinas (Unicamp), estuda episódios de violência extrema em escolas no Brasil. Em levantamento que abrange o período de 2001 a 2024, ela identificou 40 ataques — 25 deles concentrados apenas entre 2022 e 2024. Todos os autores eram homens. Segundo Garcia, esses crimes frequentemente estão associados a crenças opressoras como misoginia, racismo e ideologias extremistas. Ela destaca ainda o papel relevante de comunidades online no estímulo a esses ataques, ambientes onde ressentimentos, frustrações e raiva são intensificados. “A misoginia é um fenômeno multifatorial. Por um lado, há questões psicológicas de cada um que passam a ser exploradas nessas comunidades. Quem tem baixa tolerância à frustração é mais vulnerável às ideias de ódio”, explica.

A construção de um modelo de masculinidade violenta, que hierarquiza e inferioriza as mulheres, é parte essencial das dinâmicas de radicalização. “Entre esses criminosos, há meninos ou homens muito frustrados sexualmente. Tímidos, que não têm namorada e se sentem muito mal por isso. Entendem que, para ser homem e provar masculinidade, têm que ser ricos, poderosos e ter um monte de mulheres. E caem nessa estupidez da masculinidade tóxica”, analisa Lola. Para enfrentar esse tipo de violência, especialistas apontam a necessidade de ações integradas que envolvam segurança pública, educação, saúde mental e regulação das plataformas digitais. “Não é possível que as plataformas permitam que tudo isso esteja acontecendo sem fazer nada. Elas sabem muito bem o que acontece nas comunidades. Pesquisas mostram que elas lucram com a misoginia e a radicalização dos jovens. Precisamos dar um fim nisso”, conclui Lola Aronovich.