Alta de quase 55% no querosene de aviação deve pressionar preços das passagens aéreas no Brasil
Combustível já representa 45% dos custos das companhias; guerra no Oriente Médio e câmbio elevam pressão sobre tarifas
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O recente reajuste de 54,8% no preço do querosene de aviação (QAV) anunciado pela Petrobras deve impactar diretamente o bolso do consumidor, elevando os preços das passagens aéreas nos próximos meses. O aumento ocorre em um momento em que os bilhetes já acumulam inflação de 11,40% somente no mês de fevereiro, e o combustível representa uma parcela cada vez mais significativa dos custos operacionais das empresas do setor.
A estatal reajustou os valores do QAV na última quarta-feira (1º de abril), com variações que podem chegar a 56% dependendo da localidade e da modalidade de venda. Em nota, a Petrobras confirmou o percentual médio de 54,8%. A alta está diretamente ligada à disparada do preço do petróleo no mercado internacional, impulsionada pela guerra no Oriente Médio. Enquanto o barril do tipo Brent oscilava perto de US$ 70 na véspera do conflito (28 de fevereiro), ele já ultrapassou os US$ 100 na última quarta-feira.
Os efeitos regionais já são visíveis. Em Belém, por exemplo, o metro cúbico do QAV saltou de R$ 3.546,90 para R$ 5.495,30, uma alta de 54,93%, considerando a modalidade de venda ETM (entrega por descarga de navio ou duto). Esses valores, no entanto, não incluem impostos, o que agrava ainda mais o cenário para as companhias aéreas.
De acordo com a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), o combustível passou a responder por 45% dos custos operacionais do setor, ante cerca de 30% anteriormente. Esse percentual considera não apenas o reajuste recente, mas também o aumento de 9,4% vigente desde 1º de março. O coordenador dos Índices de Preços do FGV Ibre, André Braz, explica que o repasse ao consumidor ocorre de forma gradual, mas é inevitável no médio prazo. Ele aponta três canais de transmissão: o custo direto e imediato do QAV, a exposição cambial (já que o preço acompanha o petróleo e o dólar) e a baixa eficiência operacional no curto prazo, já que não é possível reduzir o consumo de combustível rapidamente sem alterar malhas e frotas.
O economista e professor da FIA Business School, Carlos Honorato, complementa que o Brasil está despreparado para choques externos como o da guerra no Oriente Médio, e critica a alta carga tributária e a complexidade na gestão das companhias aéreas no país. Em meio à pressão, a Petrobras sinalizou que o reajuste pode ser reduzido para 18% em abril, mas a diferença deverá ser paga pelos clientes de forma parcelada em até seis vezes.
Procuradas, as empresas Gol, Latam e Azul preferiram não se pronunciar individualmente sobre o repasse às tarifas. Enquanto isso, o Ministério de Portos e Aeroportos já enviou ao Ministério da Fazenda uma proposta para cortar impostos incidentes sobre o QAV, reduzir o IOF sobre operações financeiras das aéreas e diminuir o Imposto de Renda sobre leasing de aeronaves, na tentativa de amenizar os efeitos da alta internacional sobre o setor.
O histórico recente já mostra uma trajetória de forte pressão sobre o bolso do passageiro. Entre 2021 e 2023, os preços das passagens aéreas subiram entre 17,59% e 47,24%, bem acima da inflação oficial. Em 2024, houve trégua com queda de 22,20%, mas 2025 fechou com alta de 7,85%. Janeiro de 2026 trouxe alívio de 8,90%, porém fevereiro já registrou nova aceleração de 11,40%. O IPCA de março, que será divulgado no próximo dia 10 de abril, ainda não contemplará o reajuste do QAV anunciado nesta semana, sinalizando que os impactos mais fortes devem vir nos próximos indicadores.