31 de julho de 2025
levantamento

Falta de tempo e preço atraente explicam alta de ultraprocessados na infância, aponta Unicef

Pesquisa entrevistou 600 famílias em três comunidades urbanas do país; metade dos lares inclui produtos industrializados no lanche dos pequenos

Por Redação
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Estudo entrevistou cerca de 600 famílias de três comunidades urbanas do país - Foto: Agência Brasil

A sobrecarga materna, o preço atraente dos produtos industrializados e até mesmo componentes afetivos estão entre os principais fatores sociais que impulsionam o consumo de alimentos ultraprocessados por crianças em comunidades urbanas brasileiras. É o que revela uma pesquisa divulgada nesta terça-feira (31) pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), que ouviu cerca de 600 famílias residentes em três localidades do país: Guamá, em Belém (PA); Ibura, em Recife (PE); e Pavuna, no Rio de Janeiro (RJ). O estudo lança luz sobre um paradoxo preocupante: embora 84% dos entrevistados afirmem estar muito preocupados em oferecer uma alimentação saudável, a realidade dentro de casa nem sempre reflete essa intenção.

Em metade dos lares visitados, os ultraprocessados já fazem parte do lanche das crianças. Em um a cada quatro domicílios, esses produtos estão presentes também no café da manhã. Os itens mais comuns nas despensas familiares são iogurte com sabor, embutidos, biscoito recheado, refrigerante e macarrão instantâneo — todos caracterizados por serem produtos de origem industrial, resultantes da mistura de ingredientes naturais com aditivos químicos como corantes, aromatizantes e emulsificantes. Essa composição permite a fabricação de alimentos de baixo custo, longa durabilidade e sabores intensos, que viciam o paladar. Evidências científicas já consolidaram a relação entre o consumo frequente desses produtos e o aumento do risco de doenças como obesidade, diabetes, problemas cardiovasculares, depressão e câncer.

Sobrecarga materna e divisão desigual das tarefas

O levantamento também escancara a desigualdade de gênero no cuidado com a alimentação infantil. Em 87% das famílias, as mães são as responsáveis por comprar e servir os alimentos às crianças, e 82% delas também acumulam a tarefa de preparar as refeições. Entre os pais, os percentuais são significativamente menores: apenas 40% participam da compra, 27% cozinham e 31% oferecem a comida aos filhos. A oficial de Saúde e Nutrição do Unicef no Brasil, Stephanie Amaral, destaca o peso dessa jornada. "Muitas mães fazem isso sozinhas, além de trabalhar fora. É uma sobrecarga que acaba fazendo com que a praticidade dos alimentos ultraprocessados pese muito mais", analisa.

Desconhecimento e rotulagem que ainda não convence

Outro obstáculo apontado pela pesquisa é o desconhecimento em torno dos ultraprocessados. Produtos como iogurtes com sabor e nuggets de frango preparados na airfryer, por exemplo, foram classificados como saudáveis pela maioria dos entrevistados, revelando uma lacuna na percepção sobre o que é realmente nutritivo. A rotulagem frontal obrigatória, implementada para alertar sobre altos teores de sódio, açúcar e gorduras saturadas, também ainda não cumpre plenamente seu papel: 26% dos entrevistados disseram não compreender o significado desses avisos, enquanto 55% admitiram nunca observá-los no momento da compra. Mais expressivo ainda é o dado de que 62% dos participantes nunca deixaram de adquirir um produto por causa desses alertas.

Preço e afeto: a equação que favorece o industrializado

A percepção sobre custos também joga a favor dos ultraprocessados. Para a maioria das famílias (67%), itens como sucos de caixinha, salgadinhos e refrigerantes são considerados baratos. Em contrapartida, legumes e verduras são vistos como caros por 68% dos entrevistados, proporção que sobe para 76% no caso das frutas e para 94% no das carnes. Em entrevistas aprofundadas, os pesquisadores identificaram ainda um componente afetivo significativo. "Essas pessoas não tinham dinheiro para comprar os alimentos que elas queriam quando eram crianças, então agora elas se sentem felizes por poder comprar o que a criança quer comer. E aí esses alimentos ultraprocessados, ainda mais aqueles com desenhos e personagens, são associados a uma infância feliz", explica Stephanie Amaral. A oficial do Unicef ressalta que o controle do consumo desses produtos é especialmente desafiador porque os danos à saúde são cumulativos e não imediatos, o que reduz a percepção de risco no curto prazo.

Escolas como aliadas e caminhos para a mudança

Apesar das dificuldades, a pesquisa aponta caminhos promissores. A confiança das famílias na alimentação escolar é um deles. "As famílias mostram uma confiança muito grande na alimentação escolar, o que mostra como as escolas são importantes em oferecer o alimento saudável, mas também em promover essa alimentação para as famílias", destaca Stephanie. Com base nos achados, o Unicef elencou uma série de recomendações para enfrentar o problema. Entre elas estão o fortalecimento da regulação da publicidade infantil e da tributação de ultraprocessados; a ampliação da oferta de creches e escolas em tempo integral para reduzir a sobrecarga das mulheres; o fortalecimento da orientação alimentar nos serviços de saúde desde a gestação; o apoio a iniciativas comunitárias como hortas e feiras; a ampliação da compreensão sobre a rotulagem frontal por meio de campanhas educativas; e o investimento em estratégias de comunicação que considerem a realidade das famílias, com linguagem simples e foco em desafios práticos do dia a dia.