Radiotelescópio no Sertão da Paraíba vira alvo de relatório dos EUA que alega que estrutura é base militar da China; entenda
A iniciativa busca detectar oscilações acústicas bariônicas (BAO) por meio da observação de sinais em radiofrequência
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Moradores de Aguiar, no Sertão da Paraíba, discordam de um relatório do Congresso dos Estados Unidos que alega que a estrutura do Radiotelescópio BINGO, instalado na cidade para mapear energia e matéria escura no universo, é uma base militar da China. Para a população, o empreendimento tecnológico representa o "reconhecimento da cidade e do Sertão".
O projeto reúne instituições do Brasil e da China, como o CESTNCRI, a UFCG, a UFPB e o Governo da Paraíba. O coordenador do projeto, o físico Élcio Abdalla, já havia negado ao g1 que o local seja uma base militar e reforçou o caráter científico da iniciativa.
"Além de trazer muita oportunidade e questão de emprego, está mudando a infraestrutura da cidade, está crescendo a questão do turismo, além do reconhecimento em si, da cidade e do Sertão", disse Maisa Matias, estudante e moradora.
Edilene Lira, engenheira responsável pelas obras do BINGO, nasceu na cidade de Carrapateira, próxima a Aguiar. Para ela, o empreendimento foi benéfico, pois permitiu aliar a profissão à proximidade com a região para supervisionar as obras.
"Eu nunca imaginei que realmente a Engenharia Civil fosse me levar tão longe e também, ao mesmo tempo, ela me trazer para tão perto de casa para construir algo tão grandioso", ressaltou.
O projeto
O laboratório integra o projeto internacional BINGO (Baryon Acoustic Oscillations in Neutral Gas Observations), voltado à pesquisa em radioastronomia. A iniciativa busca detectar oscilações acústicas bariônicas (BAO) por meio da observação de sinais em radiofrequência para averiguar a matéria e a energia escura do universo.
O corpo principal do radiotelescópio foi enviado da China para o Brasil no dia 10 de junho de 2025. A estrutura saiu do Porto de Tianjin, na China, e desembarcou no Porto de Suape, em Pernambuco, após quase dois meses de transporte. Entre as partes enviadas estão os espelhos primário e secundário e as torres das cornetas, componentes centrais do radiotelescópio.
Coordenador nega uso militar
O coordenador do projeto, Élcio Abdalla, disse que o local não é uma base militar e que não há ingerência chinesa nas decisões — quaisquer aplicações dizem respeito aos brasileiros que compõem a iniciativa.
"Não tem nada a ver com aplicação militar e os chineses estão nisso numa aplicação puramente científica. Os meus colegas chineses não fazem nenhuma afirmação do ponto de vista militar", disse Élcio.
Sobre a participação chinesa, Abdalla explicou que apenas três pesquisadores de universidades do país asiático fazem parte da cúpula de comando e que o governo chinês entra apenas como apoio tecnológico e de pesquisadores. "Se houver alguma influência, é uma influência brasileira", afirmou.
Os três pesquisadores têm uma relação científica de longa data com o coordenador. "Um deles é meu amigo pessoal e parceiro de pesquisas há cerca de três décadas. Os outros dois participaram como estudantes: um hoje é professor no Observatório de Xangai, e o terceiro é um físico que também foi aluno", explicou.
Equipamentos chineses
Outro ponto em que a China participa do projeto é no fornecimento dos equipamentos que compõem a estrutura. Várias peças vieram do país asiático, incluindo os espelhos primário e secundário e as torres das cornetas. As estruturas viajaram em contêineres e foram testadas e certificadas antes do embarque.
O engenheiro sênior Wu Yang, do 54º Instituto de Pesquisa da China Electronics Technology Group Corporation (CETC), explicou que o telescópio foi projetado com foco na montagem em território brasileiro. "O telescópio adota uma estrutura dual com deslocamento, sendo que cada seção possui uma forma única. A instalação no Brasil será feita pelo lado brasileiro, o que exige um processo de montagem simplificado", afirmou.
Relatório americano
O relatório, intitulado "Pulling Latin America Into China's Orbit" ("Atraindo a América Latina para a Órbita da China", em tradução livre), cita instalações no Brasil, Argentina, Bolívia e Chile que são vistas pelo comitê como suspeitas de terem uso duplo para a inteligência militar.
O documento foi elaborado pelo Comitê Especial sobre o Partido Comunista Chinês, do Congresso dos Estados Unidos, presidido pelo deputado John R. Moolenaar (Republicano-Michigan).
A Estação Terrestre de Tucano, na Bahia, também foi apontada pelo relatório como uma base militar chinesa não-oficial para lançamentos especiais. O Governo da Paraíba estima um investimento direto de R$ 20 milhões no projeto BINGO.