Estudo revela que neandertais e sapiens tinham preferência sexual
Pesquisa publicada na Science aponta que fluxo genético ocorreu predominantemente entre homens neandertais e mulheres sapiens; fenômeno explica ausência de DNA neandertal no cromossomo X humano
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Um novo estudo publicado na revista Science no final de fevereiro trouxe uma resposta para um mistério que intrigava geneticistas há anos: se humanos modernos e neandertais cruzaram entre si, por que há pouco ou nenhum vestígio de DNA neandertal no cromossomo X dos sapiens?
A explicação, segundo pesquisadores da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, não é biológica, mas social. O fenômeno teria sido moldado por preferências de acasalamento de longa data entre as duas espécies.
Desde 2010, estudos comprovam que Homo sapiens e neandertais cruzaram-se há milhares de anos. A maioria das pessoas atualmente tem fragmentos de DNA neandertal herdados desse encontro. No entanto, esses traços são praticamente ausentes no cromossomo X — estrutura que as mulheres possuem em dose dupla (XX) e os homens em dose única (XY).
A hipótese anterior era de que os genes neandertais no cromossomo X eram biologicamente “tóxicos” para os humanos e, por isso, foram eliminados pela seleção natural. Mas a nova pesquisa aponta um caminho diferente.
Segundo os autores, o fluxo genético entre as espécies ocorreu predominantemente entre machos neandertais e fêmeas humanas anatomicamente modernas, explicou o pesquisador sênior Alexander Platt.
Isso explica o padrão genético observado:
- As fêmeas têm dois cromossomos X. Machos neandertais têm um cromossomo X.
- Se machos neandertais cruzavam com mais frequência com mulheres sapiens, mais cromossomos X humanos entraram no conjunto genético neandertal.
- Por outro lado, menos cromossomos X neandertais acabaram nas populações humanas.
A equipe encontrou abundância de DNA humano moderno no cromossomo X dos neandertais — exatamente o oposto do que se observa nos sapiens.
A pesquisa abre caminho para novas investigações sobre as dinâmicas de gênero e migração nas sociedades neandertais e humanas. Entre as possibilidades estão:
- machos neandertais migravam mais, encontrando-se com fêmeas humanas fora de suas comunidades;
- fatores culturais ou populacionais — como o declínio dos neandertais — podem ter influenciado os padrões de acasalamento.
O paleogeneticista espanhol Carles Lalueza-Fox, do Instituto de Biologia Evolutiva (IBE), afirmou à agência EFE que a hipótese “poderia fazer sentido no contexto de uma população em declínio, como a dos neandertais”, na qual haveria dificuldade em encontrar parceiros.
No entanto, ele não descarta “que houvesse outros mecanismos sobrepostos, incluindo fatores culturais”. A questão sobre se houve atração ou violência permanece em aberto.
“Não temos como saber se esse foi um cenário de conflito”, afirma Sarah Tishkoff, geneticista da Universidade da Pensilvânia e autora principal do estudo, destacando que a interação também poderia ter sido pacífica.
Para os autores, os resultados mostram que a evolução não foi apenas “uma batalha de genes fortes contra genes fracos”, mas também o produto de interações sociais que moldaram o genoma dos humanos modernos.
O estudo, publicado na Science, reforça a ideia de que o encontro entre neandertais e sapiens foi mais complexo do que se imaginava — e que fatores culturais, demográficos e sociais tiveram papel determinante na herança genética que carregamos até hoje.