31 de julho de 2025
SAÚDE

Fim da patente da semaglutida no Brasil abre caminho para biossimilares e pode reduzir preços de Ozempic e Wegovy

Expectativa é de maior concorrência e ampliação do acesso a medicamentos usados no tratamento de diabetes e obesidade; especialistas alertam para uso com acompanhamento médico

Por Redação
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Fim da patente da semaglutida abre nova fase do mercado no Brasil - Foto: Shutterstock/Ilustração

Nesta sexta-feira (20), chega ao fim a patente da semaglutida no Brasil, a molécula que revolucionou o tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade nos últimos anos. A mudança marca o início de uma nova fase no mercado de medicamentos da classe dos análogos de GLP-1, que inclui produtos consagrados como Ozempic e Wegovy.

Com o fim da exclusividade, outras empresas poderão produzir versões da substância, o que deve ampliar a concorrência e abrir espaço para a chegada de medicamentos biossimilares. A expectativa do setor é que essa movimentação também pressione os preços e facilite o acesso de mais pacientes ao tratamento.

A popularidade desses medicamentos cresceu rapidamente nos últimos anos. Inicialmente desenvolvidos para o controle do diabetes, eles passaram a ser amplamente utilizados no tratamento da obesidade após estudos demonstrarem redução significativa do peso corporal.

Atualmente, grande parte desse mercado é dominada por multinacionais. A dinamarquesa Novo Nordisk lidera com medicamentos como Ozempic e Wegovy (baseados em semaglutida), além de Victoza e Saxenda (formulados com liraglutida).

Os preços ainda refletem o cenário de baixa concorrência e podem variar entre R$ 825 e R$ 1.699 por mês, dependendo da dose e da indicação.

Com o fim da patente, outras empresas passam a poder desenvolver versões biossimilares da semaglutida. Diferentemente dos genéricos tradicionais, esses medicamentos não são cópias idênticas da molécula original, pois são produzidos por processos biotecnológicos complexos.

Segundo o endocrinologista Ricardo Barroso, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional São Paulo (SBEM SP), essas versões passam por testes rigorosos antes de chegar ao mercado.

“A semaglutida é um medicamento biológico produzido por processos biotecnológicos específicos. Os biossimilares recriam essa molécula por métodos semelhantes, mas não são idênticos. Eles passam por análises físico-químicas e testes clínicos para demonstrar equivalência terapêutica e são avaliados pela Anvisa”, explica.

De acordo com o especialista, os estudos disponíveis até agora indicam que essas versões apresentam perfis de eficácia e segurança comparáveis aos do medicamento original.

“Até o momento, os testes de biossegurança não mostram diferenças significativas entre o produto original e os biossimilares. A ampliação do uso permitirá observar ainda mais dados clínicos, mas não há motivo para duvidar da segurança dessas medicações”, afirma.

A entrada de novos fabricantes tende a aumentar a competição e pode resultar na redução de preços. Esse movimento, segundo especialistas, tem potencial para ampliar o acesso ao tratamento.

“Com a chegada de biossimilares e a consequente disputa de preços, acredita-se que haja uma redução significativa no valor desses medicamentos. Isso pode permitir que mais pacientes tenham acesso ao tratamento para obesidade, diabetes e esteatose hepática”, diz Ricardo Barroso.

Para o endocrinologista, o impacto pode ser relevante em um país onde tanto a diabetes quanto a obesidade apresentam alta prevalência.

“Com maior disponibilidade de análogos de GLP-1 e preços mais acessíveis, esses medicamentos poderão chegar a uma população que hoje não tem condições de utilizar o produto original. Isso pode mudar a forma como tratamos obesidade e diabetes no Brasil”, afirma.

Mesmo com a expansão do mercado, o médico reforça que esses fármacos devem sempre ser utilizados com acompanhamento profissional.

“São medicações de uso controlado e precisam ser prescritas por profissionais de saúde. O acompanhamento médico é fundamental para avaliar efeitos colaterais e garantir o uso adequado”, destaca.

Procurada, a Novo Nordisk afirmou que o fim da patente faz parte do ciclo natural de qualquer inovação farmacêutica e que a companhia já se preparava para esse novo cenário.

“O encerramento de uma patente é uma etapa natural no ciclo de vida de qualquer inovação. A empresa está preparada para atuar com solidez neste novo contexto”, informou a companhia.

Segundo a farmacêutica, a estratégia continuará baseada em investimentos em pesquisa e desenvolvimento de novos tratamentos para doenças crônicas.

“A inovação segue sendo um dos pilares centrais da companhia, com um portfólio de medicamentos transformadores e um pipeline robusto que pode gerar novos avanços no cuidado de doenças crônicas graves”, diz o comunicado.

A empresa também destacou que o Brasil segue como um mercado estratégico. A fábrica da companhia em Montes Claros (MG) responde por cerca de 25% da produção mundial de insulinas da Novo Nordisk e deve ampliar a produção nacional de medicamentos injetáveis nos próximos anos.