Adolpho Veloso perde Oscar de Melhor Fotografia para "Pecadores" em noite histórica para o Brasil
Paulista de 36 anos disputou estatueta pelo trabalho em "Sonhos de Trem", filme da Netflix filmado com 99% de luz natural; Autumn Durald Arkapaw levou a categoria
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O diretor de fotografia brasileiro Adolpho Veloso, de 36 anos, não conquistou o prêmio de Melhor Fotografia no Oscar 2026, realizado na noite deste domingo (15) no Dolby Theatre, em Los Angeles. Ele foi indicado por seu trabalho em "Sonhos de Trem" (Train Dreams), do diretor Clint Bentley, mas a estatueta ficou com Autumn Durald Arkapaw, por "Pecadores" – filme que fez história ao se tornar o mais indicado da premiação, com 16 nomeações.
Veloso disputava a categoria com pesos-pesados da indústria: além da vencedora, concorriam Dan Laustsen ("Frankenstein"), Darius Khondji ("Marty Supreme") e Michael Bauman ("Uma Batalha Após a Outra") . Antes mesmo da cerimônia, o brasileiro já minimizava suas chances – em entrevistas, chegou a dizer que, se não ganhasse, torcia para que o prêmio fosse para Arkapaw.
Quem é Adolpho Veloso
Paulista de 36 anos, filho de família mineira (sua mãe é de Araguari), Veloso se tornou apenas o segundo brasileiro indicado na categoria de Melhor Fotografia em toda a história do Oscar. O primeiro foi Cesar Charlone, por "Cidade de Deus", em 2004. Sua trajetória inclui trabalhos em videoclipes para artistas como Pabllo Vittar e Gloria Groove, além de campanhas publicitárias para marcas globais como Nike, Adidas e Leica.
O reconhecimento internacional veio justamente com "Sonhos de Trem", um filme independente que custou apenas US$ 8 milhões – orçamento modesto para os padrões de Hollywood, especialmente se comparado aos mais de US$ 150 milhões de seus concorrentes . O longa, estrelado por Joel Edgerton e Felicity Jones, está disponível na Netflix e concorreu em quatro categorias no Oscar: Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Canção Original e Melhor Fotografia.
O diferencial da fotografia de Veloso
O que torna o trabalho de Adolpho Veloso tão especial? "Sonhos de Trem" foi filmado com 99% de luz natural em diferentes locações nos Estados Unidos. A escolha foi deliberada: o fotógrafo queria trazer uma atmosfera etérea para as memórias do protagonista Robert Grainier, um lenhador que trabalha na construção de ferrovias no início do século XX.
Em entrevistas, Veloso explicou que a opção pela luz natural é uma herança de sua formação no Brasil, com orçamentos reduzidos. "A gente trabalhou quase o filme todo com luz natural. Não tem interferência de luz artificial ou efeitos especiais. É difícil fazer isso, mas foi a maneira que aprendi a trabalhar", disse ao Estado de Minas.
Especialistas ouvidos pela GZH destacaram a delicadeza do trabalho do brasileiro. O diretor de fotografia Bruno Polidoro avaliou que Veloso "consegue inserir os personagens dentro desses universos que são muito únicos e efêmeros. Ele vê essa luz natural com muito afeto, de uma forma bela, densa" . Já Alex Sernambi comparou seu estilo ao naturalismo de Néstor Almendros, fotógrafo cubano oscarizado por "Cinzas do Paraíso".
Elogios de Spielberg
Ainda que não tenha levado a estatueta, Veloso coleciona um reconhecimento talvez ainda mais raro: Steven Spielberg entrou em contato com o diretor Clint Bentley para elogiar o filme e fazer perguntas sobre os bastidores. O cineasta também questionou "quem é esse diretor de fotografia", gerando rumores de uma possível parceria – o que Veloso desconversou com bom humor.
O legado da indicação
Mesmo sem a vitória, Adolpho Veloso já entrou para a história do cinema brasileiro. Sua indicação marca a primeira vez que o Brasil emplacou cinco nomeações em uma mesma edição do Oscar: além dele, "O Agente Secreto" concorreu a Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator (Wagner Moura) e Melhor Elenco.
"São 5% de chance, mas, se não fizer nada, é zero", resumiu o fotógrafo sobre a campanha. "A única coisa que eu não faço que político faz é comer pastel e abraçar criança, porque o resto estou fazendo tudo".