31 de julho de 2025
POLÍTICA

Itamaraty revoga visto de assessor de Trump que viria visitar Bolsonaro na prisão; Lula condiciona entrada à liberação de ministro

Governo brasileiro alega omissão e falseamento de informações na solicitação do visto; encontro com ex-presidente na Papudinha havia sido vetado pelo STF por risco de ingerência externa

Por Redação
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Darren Beattie, à esquerda, em evento nos EUA em 2022. - Foto: John Rudoff/Sipa USA via Reuters Connect

O Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) revogou, nesta sexta-feira (13), o visto do assessor do governo Donald Trump, Darren Beattie, que pretendia visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro na prisão em Brasília. A decisão foi tomada após o governo brasileiro identificar "omissão e falseamento de informações relevantes quanto ao motivo da visita por ocasião da solicitação do visto, em Washington", conforme nota da pasta.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi além e condicionou a entrada de Beattie no Brasil à liberação dos vistos do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e de sua família, que foram cancelados pelos Estados Unidos em agosto do ano passado. "Aquele cara americano que disse que vinha pra cá, para visitar Jair Bolsonaro, foi proibido de visitar. E eu o proibi de vir ao Brasil enquanto não liberar os vistos do meu ministro da Saúde, que estão bloqueados", afirmou Lula durante agenda no Rio de Janeiro.

A polêmica envolvendo a vinda de Beattie começou na terça-feira (10), quando a defesa de Bolsonaro pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) autorização para que o assessor norte-americano visitasse o ex-presidente na Papudinha, onde ele cumpre pena de 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado.

Inicialmente, o ministro Alexandre de Moraes autorizou o encontro para a quarta-feira (18), data regular de visitas na unidade prisional. No entanto, a defesa pediu a remarcação para segunda (16) ou terça (17), alegando compromissos de agenda de Beattie no Brasil .

Diante do novo pedido, Moraes solicitou esclarecimentos ao Itamaraty sobre a agenda diplomática do assessor de Trump. A resposta do ministério foi decisiva: o visto de Beattie havia sido concedido exclusivamente para participação em um fórum sobre minerais críticos em São Paulo e para reuniões oficiais com representantes do governo brasileiro, sem qualquer menção a encontro com Bolsonaro.

Em ofício encaminhado ao STF, o chanceler Mauro Vieira alertou que "a visita de um funcionário de Estado estrangeiro a um ex-presidente da República em ano eleitoral pode configurar indevida ingerência nos assuntos internos do Estado brasileiro".

Com base nesse alerta, Moraes reconsiderou sua decisão e negou a visita na quinta-feira (12). O ministro destacou que a viagem de Beattie não incluía agenda oficial na penitenciária e que a concessão do visto atendeu estritamente ao propósito relatado pela embaixada dos Estados Unidos.

Reação do governo e reciprocidade

A revogação do visto nesta sexta foi o desfecho do caso. Fontes do Itamaraty afirmaram que a postura de Beattie foi vista como "má-fé", já que ele omitiu a intenção de visitar Bolsonaro ao solicitar o visto. O governo brasileiro aplicou o princípio da reciprocidade, argumentando que os EUA também negariam visto a alguém que mentisse sobre as intenções de visitar o país.

A declaração de Lula sobre a liberação dos vistos de Padilha adicionou um novo elemento à crise diplomática. Em agosto de 2025, o governo Trump revogou o visto da esposa e da filha de 10 anos do ministro da Saúde, em meio a sanções relacionadas ao programa Mais Médicos e à participação de médicos cubanos no Brasil. O visto de Padilha já estava vencido e, por isso, não foi cancelado, mas ele ficou impedido de entrar nos Estados Unidos.

Padilha era ministro da Saúde em 2013, quando o programa Mais Médicos foi implementado durante o governo Dilma Rousseff. O Departamento de Estado dos EUA acusou os envolvidos de participar de um "esquema de exportação de trabalho forçado do regime cubano".

Quem é Darren Beattie

Beattie é conselheiro sênior do Departamento de Estado dos EUA para políticas voltadas ao Brasil, nomeado ao cargo em fevereiro . Ele é próximo de Eduardo Bolsonaro e do influenciador Paulo Figueiredo, e já chamou o ministro Alexandre de Moraes de "principal arquiteto do complexo de censura e perseguição contra Bolsonaro".

Sua primeira viagem ao Brasil como assessor de Trump incluiria passagens por Brasília e São Paulo, onde participaria do Fórum Brasil-EUA de Minerais Críticos. O governo americano vem negociando acordos de fornecimento preferencial de terras raras com diversos países, e o Brasil possui a segunda maior reserva desse tipo de recurso no mundo.

Com a revogação do visto e a proibição explícita de Lula, a visita de Beattie ao Brasil está definitivamente cancelada, em mais um capítulo das tensões diplomáticas entre os dois países.