MPF abre inquérito para investigar possíveis casos de tortura e tratamento degradante no BBB 26
Investigação apura dinâmicas como o Quarto Branco após relatos de episódios convulsivos e desmaio da participante alagoana Rafaella Farias
Publicado em
O Ministério Público Federal (MPF), por meio da Procuradoria da República no Rio de Janeiro, abriu um inquérito civil para investigar possíveis práticas de tortura e tratamento degradante no Big Brother Brasil 26. A decisão ocorre após representações que apontam riscos à integridade física e psicológica dos participantes do reality show, com destaque para o caso da participante alagoana Rafaella Farias, a Rafa Jaqueira, que chegou a desmaiar durante uma prova.
O procedimento teve origem após relatos de episódios convulsivos vivenciados pelo participante Henri Castelli durante uma prova de resistência. O representante da denúncia alega que as condições impostas pela produção expõem a saúde dos envolvidos a riscos desnecessários. Em outra ocasião, o participante Breno ficou "exilado" em uma área externa da casa.
Um dos pontos centrais da investigação é a dinâmica conhecida como "Quarto Branco". Adotada pela primeira vez este ano, a prova consiste em um confinamento de resistência psicológica e física, onde participantes são mantidos em um ambiente totalmente branco, isolado e sem janelas, com um botão vermelho no centro que deve ser acionado em caso de desistência.
Os participantes permaneceram confinados no Quarto Branco por 120 horas e 52 minutos, a dinâmica mais longa da história do programa. Durante esse período, tinham disponíveis apenas biscoitos cream cracker e água mineral. Após 85 horas do início da dinâmica, a produção também forneceu água de coco aos brothers.
A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) encaminhou uma carta aberta ao MPF criticando o formato da prova, apontando semelhanças com técnicas utilizadas em regimes ditatoriais latino-americanos para infligir sofrimento.
O caso de Rafa Jaqueira
No caso da participante Rafa Jaqueira, a alagoana desmaiou em janeiro de 2026 durante o desafio final do Quarto Branco. A prova consistia em os participantes permanecerem sobre miniplataformas, sem poder tocar no chão ou nas paredes.
Segundo relatos, Rafaella chegou a alertar os colegas segundos antes de perder os sentidos: "Vou desmaiar" . Imediatamente após a queda, a equipe médica do programa prestou atendimento. A dinâmica foi encerrada pela produção, que garantiu que os outros quatro participantes – Chaiany, Gabriela, Leandro e Matheus – conquistassem vagas na casa.
O relato da denúncia afirma ainda que ela teria sido obrigada a permanecer de pé em um pedestal de diâmetro muito pequeno, técnica descrita pelo CEMDP como similar às utilizadas em regimes ditatoriais latino-americanos para infligir sofrimento.
A dinâmica também foi marcada por condições precárias de higiene. Os participantes ficaram mais de 100 horas sem banho, o que provocou problemas como coceira intensa relatada por Chaiany Andrade. Especialistas ouvidos pela imprensa alertam que o ambiente sem janelas e com luz artificial constante causa fragmentação do sono e perda de noção de tempo.
Para piorar, a produção utilizou sons perturbadores como choro de bebê e arranhões, tocados aleatoriamente para impedir qualquer descanso profundo dos confinados . Segundo o documento do MPF, submeter indivíduos a situações perigosas para gerar entretenimento pode representar uma afronta direta à dignidade humana.
A situação dos participantes chegou a repercutir internacionalmente e foi apontada como "tortura" por um apresentador espanhol, que ficou chocado ao ver que os brothers estavam expostos a barulhos perturbadores, momentos de blackout e condições péssimas de higiene pessoal, sono e alimentação.
Na decisão que determinou o inquérito, o MPF destacou que a liberdade de produção das emissoras de televisão não pode servir como autorização para violar direitos fundamentais. O órgão ressaltou ainda que emissoras de TV são concessionárias de serviço público e devem respeitar os valores éticos e sociais da pessoa e da família, conforme previsto no artigo 221 da Constituição Federal.
Como diligência inicial, o MPF solicitou que a TV Globo apresente informações detalhadas sobre as dinâmicas questionadas e os protocolos adotados para garantir a segurança e a saúde dos participantes do programa.