31 de julho de 2025
Violência Digital

Um em cada cinco adolescentes sofre violência sexual online no Brasil

Levantamento revela que cerca de 3 milhões foram vítimas em um ano; maioria dos casos ocorre pelas redes sociais

Por Redação
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O levantamento revelou que, em 49% dos casos, o agressor era alguém conhecido da vítima, como amigos, familiares ou parceiros afetivos. - Foto: Ilustrativa / Freepik

Um em cada cinco adolescentes brasileiros entre 12 e 17 anos já foi vítima de violência sexual facilitada por tecnologia no período de um ano. O dado representa cerca de 3 milhões de jovens e consta no relatório Disrupting Harm in Brazil, divulgado nesta quarta-feira (4) pelo UNICEF, em parceria com a ECPAT International e a Interpol, com financiamento da Safe Online.

O estudo investigou situações de abuso e exploração sexual cometidas com uso de meios digitais, seja totalmente no ambiente virtual ou combinadas com encontros presenciais. Em 66% dos relatos, a violência ocorreu exclusivamente online, principalmente por meio de redes sociais, aplicativos de mensagens e plataformas de jogos.

Entre as ferramentas mais utilizadas por agressores para abordar vítimas estão o Instagram e o WhatsApp. Segundo a especialista em Proteção Contra as Violências do UNICEF no Brasil, Luiza Teixeira, o padrão mais comum envolve a aproximação em perfis públicos, construção de vínculo de confiança e posterior migração para conversas privadas, onde ocorrem as situações de abuso ou exploração.

Formas mais recorrentes de violência

A exposição a conteúdo sexual não solicitado foi a situação mais relatada, atingindo 14% dos entrevistados. De acordo com o relatório, essa prática costuma ser utilizada para naturalizar o conteúdo sexual e facilitar o escalonamento das agressões.

Outras situações apontadas incluem:

  • 9% receberam pedidos para enviar imagens íntimas;
  • 5% receberam ofertas de dinheiro ou presentes em troca de fotos íntimas;
  • 4% sofreram ameaças de divulgação de conteúdo íntimo;
  • 4% receberam propostas de conversas de cunho sexual;
  • 3% tiveram imagens íntimas compartilhadas sem consentimento;
  • 3% receberam ofertas de dinheiro ou presentes em troca de encontros sexuais;
  • 3% tiveram imagens manipuladas com uso de inteligência artificial para criar conteúdo sexual falso;
  • 2% foram ameaçados ou chantageados para realizar atos sexuais.

O levantamento também revelou que, em 49% dos casos, o agressor era alguém conhecido da vítima, como amigos, familiares ou parceiros afetivos. Entre esses episódios, 52% dos primeiros contatos ocorreram pela internet, enquanto 27% começaram na escola e 11% nas próprias residências das vítimas.

Silêncio e desinformação

Um terço dos adolescentes que sofreram violência não contou a ninguém sobre o ocorrido. Entre os principais motivos estão vergonha, medo de não serem acreditados e desconhecimento sobre onde buscar ajuda.

A pesquisa aponta ainda que 15% das vítimas não sabiam que as situações configuravam crime e 12% consideraram que o episódio “não foi grave o suficiente” para denúncia — cenário que, segundo o UNICEF, demonstra a naturalização da violência digital.

Entre aqueles que relataram o caso, 24% procuraram amigos. Apenas 12% recorreram à mãe ou outra cuidadora, e 9% ao pai ou responsável do sexo masculino.

Uso intenso da internet amplia vulnerabilidade

O acesso à internet é praticamente universal entre os adolescentes entrevistados. Cerca de 45% afirmaram poder utilizar a rede a qualquer momento, enquanto 12% têm restrições impostas pelos pais e 14% pelos professores. Nesse contexto, 37% disseram ter sido expostos a conteúdo sexual de forma acidental, principalmente em redes sociais e anúncios online.

Recomendações

O relatório apresenta recomendações para diferentes setores:

Governo e Sistema de Justiça

  • Reforçar o Sistema de Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente;
  • Padronizar protocolos de atendimento centrados nas vítimas;
  • Atualizar legislações diante das tecnologias emergentes;
  • Enfrentar vulnerabilidades que ampliam riscos de exploração.

Famílias e cuidadores

  • Promover diálogo, escuta ativa e orientação;
  • Fortalecer a educação sobre consentimento e relacionamentos saudáveis.

Escolas e profissionais

  • Integrar educação sobre proteção digital no currículo;
  • Capacitar equipes para identificar e responder aos casos.

Empresas de tecnologia

  • Ampliar cooperação para prevenção;
  • Implementar salvaguardas eficazes nas plataformas.

Sociedade em geral

  • Divulgar canais de denúncia seguros e acessíveis;
  • Promover cultura de proteção e responsabilidade coletiva.

Segundo o UNICEF, o enfrentamento da violência sexual online depende do diálogo aberto com crianças e adolescentes, do acolhimento às vítimas e da responsabilização dos agressores.