Estreito de Ormuz: por que o fechamento da rota do petróleo pode afetar a inflação e os juros no Brasil
Com 20% da produção global de petróleo passando pela região, conflito no Oriente Médio já elevou o barril do Brent a US$ 80
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O fechamento do Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais estratégicas do mundo, acendeu o alerta no mercado global de petróleo e trouxe reflexos imediatos para a economia brasileira. A passagem, localizada ao sul do Irã, conecta os golfos Pérsico e de Omã e é responsável pelo escoamento de cerca de 20% de toda a produção mundial de petróleo e gás.
Desde os ataques coordenados por Estados Unidos e Israel contra o Irã no último sábado (28), centenas de navios petroleiros ficaram ancorados, impedidos de atravessar a região. O impacto foi imediato: o barril do Brent superou os US$ 80 nesta segunda-feira (2), com alta de 13%, e o dólar voltou a subir, interrompendo uma trajetória de queda das últimas semanas.
O economista Rodolpho Sartori, da agência classificadora de risco Austin Rating, explicou à Agência Brasil que o Estreito de Ormuz é a principal rota para o petróleo produzido por Irã, Arábia Saudita e Iraque. "Com o estreito fechado, a oferta cai muito e, consequentemente, os preços sobem quase que de forma imediata", afirmou.
Sartori destaca que, enquanto o conflito perdurar e a passagem permanecer interditada, os preços do petróleo devem continuar elevados — e podem subir ainda mais à medida que os estoques globais se reduzirem.
O gerente da tesouraria do Banco Daycoval, Otávio Oliveira, reforça que o problema não está na capacidade de produção, mas na logística. A Opep+ já anunciou no domingo (1º) um aumento na oferta de petróleo para tentar compensar eventuais interrupções. No entanto, Oliveira alerta que a questão logística é o ponto crítico.
"O Estreito é realmente estreito. Com pouca coisa você consegue fechá-lo. Um conflito, então, nem se fala", diz. Ele explica que a interrupção do tráfego de navios causaria uma "bagunça" em todas as cadeias produtivas. Mesmo sendo exportador de petróleo, o Brasil poderia ser afetado por importar derivados do óleo bruto, que chegariam encarecidos ao país.
A alta do petróleo pode pressionar a inflação brasileira. Sartori aponta que, se a guerra se prolongar, o repasse de preços ao consumidor pode se tornar inevitável, gerando um "repique na inflação". Isso, por sua vez, pode influenciar as decisões do Banco Central.
Oliveira não descarta que o conflito leve o Comitê de Política Monetária (Copom) a reduzir o ritmo de cortes da Selic, atualmente em 15% ao ano. "Tem a possibilidade de esse corte de juros vir um pouco mais tímido. Talvez não 0,50 ponto percentual, talvez 0,25 p.p.", avalia.
O dólar também reagiu à tensão geopolítica. Após semanas em queda, a moeda americana voltou a subir, beirando os R$ 5,20 no início da tarde desta segunda, com alta próxima de 1%.
Oliveira explica que o movimento é de "fuga do risco": investidores migram recursos de países emergentes, como o Brasil, para economias mais consolidadas, como os Estados Unidos e o Japão. "Tem a venda do real e a compra de outros ativos, tal qual o próprio dólar, que se fortalece globalmente", detalha.
Sartori pondera que, embora a alta do dólar seja natural em momentos de conflito, o cenário atual é complexo. "Parece-me natural que haja algum repique nesses primeiros dias, mas não temos mais o quadro do dólar se valorizar de forma abrupta como antes. Imagino que a moeda americana siga oscilando na faixa de R$ 5,20 a R$ 5,25", estima.