31 de julho de 2025
saúde pública

Estudo da Ufal publicado na The Lancet revela aumento alarmante de mortes por álcool e drogas durante a pandemia no Brasil

Pesquisa liderada por professor do Campus Arapiraca aponta crescimento de até 26% nos óbitos entre 2020 e 2022

Por Redação
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Pesquisa liderada por professor do Campus Arapiraca aponta crescimento de até 26% nos óbitos entre 2020 e 2022 - Foto: Reprodução

Além do vírus, uma marca preocupante alertada por pesquisadores: depois da pandemia de covid-19, houve um crescimento contínuo no número de mortes associadas ao consumo de drogas e álcool no Brasil. Um estudo ecológico e de base populacional liderado pelo professor Márcio Bezerra, do Complexo de Ciências Médicas e de Enfermagem da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Campus Arapiraca, analisou dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) entre 2015 e 2022 e revelou um aumento expressivo dessas mortes durante os três primeiros anos da pandemia.

Os autores identificaram variações percentuais de óbitos de 18,3% em 2020, 22,4% em 2021 e 26% em 2022, em comparação com o número esperado, quando foram registradas mais de 25,9 mil mortes. No total, foram 178 mil mortes relacionadas ao uso de substâncias psicoativas, sendo mais de 80% associadas ao álcool, principal vetor do problema no país. Os pesquisadores relacionam esse salto de mortalidade a uma epidemia colateral decorrente das interrupções provocadas pela pandemia.

"O estudo revela um aumento alarmante e sem precedentes nas taxas de mortalidade por álcool e drogas durante a pandemia de covid-19 em todos os estados do Brasil. Identificamos que o isolamento social, a crise econômica e a interrupção de serviços de saúde mental exacerbaram vulnerabilidades pré-existentes. Estes dados são um alerta urgente para a necessidade de políticas de saúde mental e redução de danos que sobrevivam a períodos de crise sanitária", ressaltou o professor Márcio.

Os dados da pesquisa foram publicados na revista científica The Lancet Regional Health – Americas, considerada o padrão-ouro da literatura médica mundial. "Este espaço não é apenas um reconhecimento de prestígio, mas a validação de que a ciência que produzimos aqui é rigorosa, ética e capaz de pautar o debate global sobre saúde pública", reforçou o professor do Campus Arapiraca, que também faz parte dos Programas de Pós-graduação em Ciências da Saúde da UFS e da Ufal.

Resultados das pesquisas

A análise do estudo feita por regiões mostrou os maiores aumentos no Nordeste, Sudeste e Sul, e quase todos os estados registraram crescimento nos óbitos, com casos extremos em Pernambuco, Amapá e Tocantins, que tiveram elevações superiores a 50% em determinados anos. As estatísticas apontam que a maior parcela das mortes durante o período foi atribuída a condições ligadas ao consumo de álcool. As tendências temporais indicaram que, enquanto as taxas eram estáveis ou em queda antes da pandemia em algumas regiões, houve aumento significativo a partir de 2020, quebrando esse padrão no Brasil depois que a Organização Mundial da Saúde declarou a pandemia.

A pesquisa utilizou modelos de regressão Joinpoint, séries temporais interrompidas (modelo ARIMA) e mapas coropléticos para análise espacial, cobrindo todo o território nacional. De acordo com os dados publicados na The Lancet, homens e mulheres apresentaram aumento das taxas, sendo os homens responsáveis pelo maior número de mortes e as mulheres com crescimento proporcional mais intenso, chegando à média anual de 4,6%, contra os 3,6% de aumento entre o sexo masculino.

O recorte da pesquisa por faixa etária identificou aumento especialmente em jovens de 20 a 39 anos (AAPC = 2%) e em pessoas com 60 anos ou mais (AAPC = 1,8%). Análises de séries temporais interrompidas confirmaram uma mudança significativa no número de óbitos a partir de março de 2020. "A pesquisa reforça a importância da aplicação de técnicas estatísticas robustas na análise de bancos de dados públicos do Sistema Único de Saúde [SUS], evidenciando o potencial dessas informações para a geração de conhecimento científico de alta qualidade e para o aprimoramento das políticas públicas em saúde", destacou a professora de Epidemiologia do curso de Medicina da Ufal Arapiraca, Maria Amélia Gurgel, coautora do trabalho.

Entre as limitações apontadas no trabalho estão possíveis vieses dos dados secundários do SIM, como subnotificação, atrasos no registro e imprecisões na codificação das causas de morte, além da ausência de informações sobre gênero e raça/etnia. Mesmo assim, os autores afirmam que os achados fornecem evidências robustas sobre o impacto da pandemia nas mortes relacionadas ao álcool e às drogas no Brasil e concluem pela urgência de intervenções públicas para mitigar consequências semelhantes em crises futuras.

Também assinam o estudo os pesquisadores Lucas Almeida Andrade; Wandklebson Silva da Paz; Glauber Rocha Monteiro; Karina Conceição Gomes de Araújo; Allan Dantas dos Santos; Carlos Dornels Freire de Souza; Álvaro Francisco Lopes de Sousa; Lariane Angel Cepas; Ana Paula Morais Fernandes; Débora dos Santos Tavares; e Tatiana Rodrigues de Moura, sob coordenação do professor Márcio Bezerra-Santos, da Ufal. "Ao liderarmos um estudo desta magnitude, colocamos a Ufal na elite da produção intelectual internacional. É a prova inequívoca de que a universidade pública de qualidade produz conhecimento que salva vidas e orienta decisões governamentais ao mais alto nível", finalizou o pesquisador.