Dos cortes de cabelo ao bar no esgoto: 'cultura rato' recifense toma conta das redes no Carnaval
Inspirado no humor e na vivência das comunidades, movimento ganha força com influenciadores, bloco de Carnaval e até bar dentro de canal de esgoto
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No Recife, onde o "homem-caranguejo" ajudou a projetar o Manguebeat internacionalmente nos anos 1990, uma nova estética urbana ganha espaço nas redes sociais: a chamada "cultura rato". O movimento, marcado pelo humor e pela vivência periférica, transforma o roedor em símbolo de identidade e resistência cultural. Com cabelos estilizados, roupas características e até um bloco de Carnaval batizado de "Ratas Peso", a expressão viralizou durante a folia, especialmente com imagens de um bar montado dentro de um canal de esgoto na comunidade de Lemos Torres, Zona Norte da cidade.
De acordo com o professor e pesquisador da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Thiago Soares, a "cultura rato" está diretamente ligada às dinâmicas digitais e às expressões culturais das periferias. "É uma cultura humorística, associada às culturas de periferia e ao ambiente digital. A figura do 'ratão' tem a ver com tornar visível esse tipo de performance", explicou. Para ele, o movimento usa o riso como estratégia de enfrentamento ao estigma, ressignificando a imagem do rato — historicamente associado à sujeira — em um símbolo de pertencimento e orgulho.
Quem lidera essa estética nas redes é o influenciador Danilo Silva, conhecido como "mestre dos ratos" e idealizador do Ratos Bar, ponto de encontro criado no canal de esgoto da comunidade. Ele conta que o termo, antes usado de forma pejorativa, foi apropriado pelo grupo como identidade. "Somos considerados ratos pelo nosso estilo maloqueiro, forma de dançar, jeito de se expressar, cortes de cabelo e roupas. Com o tempo, consegui a admiração de todos", afirmou.
Thiago Soares vê paralelos entre a "cultura rato" e o Manguebeat. "O homem-caranguejo é uma metáfora de sobrevivência na lama. O rato tem uma coisa mais engraçada, descolada, com outro tipo de instinto de sobrevivência", comparou. O pesquisador destaca que, embora dialogue com elementos de ostentação típicos das redes, o foco do movimento está na construção de uma identidade coletiva marcada pelo humor e pela ironia — um elemento essencial para a sobrevivência simbólica da periferia.