Jovem morre quatro dias após ser espancada pelo ex em Jaboatão dos Guararapes; agressor havia sido solto em audiência de custódia
Kaylanne Thaís, de 22 anos, foi agredida na segunda (16) e passou mal na sexta (20); ex-companheiro respondeu em liberdade provisória com medidas protetivas e agora é investigado por feminicídio
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Uma tragédia anunciada chocou o bairro de Prazeres, em Jaboatão dos Guararapes, no Grande Recife. A jovem Kaylanne Thaís Braz Xavier, de 22 anos, morreu na última sexta-feira (20), quatro dias após ser brutalmente espancada pelo ex-companheiro, Moabe Araújo Albuquerque Junior. O crime, registrado na segunda-feira (16), expõe mais uma vez as falhas na proteção de mulheres vítimas de violência doméstica: o agressor foi preso em flagrante, mas acabou solto em audiência de custódia no dia seguinte, antes da morte da vítima.
De acordo com informações do processo que tramita no Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), Kaylanne havia terminado o relacionamento com Moabe no dia 13 de fevereiro. Apenas três dias depois, movido por ciúmes após ler mensagens no celular da jovem, o ex-companheiro a atacou com tapas e murros, além de chutes no rosto, braços, seios e pescoço. A violência foi tamanha que ele também destruiu o aparelho telefônico dela e rasgou a parte de cima da roupa da vítima, "deixando-a despida em via pública", conforme consta no registro oficial.
Amigos da vítima relatam que Kaylanne já havia sofrido agressões anteriores do ex-companheiro. Foi a mãe dela, inclusive, quem acionou a polícia no dia do espancamento. Moabe foi preso em flagrante, mas na terça-feira (17), durante a audiência de custódia, a juíza Crystiane Maria do Nascimento Rocha, plantonista na ocasião, entendeu que não havia requisitos suficientes para decretar a prisão cautelar. Atendendo a pedidos tanto da defesa quanto do Ministério Público, ela concedeu liberdade provisória ao suspeito, impondo uma série de medidas protetivas.
Entre as condições estipuladas estavam o monitoramento eletrônico do agressor, a obrigação de manter distância mínima de 500 metros da vítima, apresentação mensal à Justiça, proibição de deixar a cidade por mais de oito dias sem autorização e a manutenção de endereço e contatos atualizados junto ao tribunal. Na prática, Moabe estava solto enquanto Kaylanne ainda lutava pela vida.
Segundo uma amiga da vítima, que preferiu não se identificar, Kaylanne chegou a fazer o exame de corpo de delito no mesmo dia das agressões, mas não passou por uma avaliação médica mais aprofundada. Durante o resto da semana, ela se queixou de fortes dores de cabeça e pelo corpo. Na sexta-feira (20), a jovem passou mal em casa e foi levada para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Sotave, também em Jaboatão. No entanto, ela já deu entrada na unidade sem vida, não resistindo aos ferimentos internos causados pela saraivada de golpes.
Kaylanne deixa dois filhos pequenos, frutos de outro relacionamento. O sepultamento ocorreu no Cemitério São Estevão, em Ponte dos Carvalhos, no Cabo de Santo Agostinho, também na região metropolitana. Agora, o que era um caso de lesão corporal grave se transformou em feminicídio, e Moabe voltará a ser investigado, desta vez por homicídio qualificado.
A Polícia Civil de Pernambuco informou, por meio de nota, que as diligências necessárias já foram iniciadas e que o caso está sob investigação. Até a última atualização desta reportagem, o g1 não havia conseguido contato com a defesa do suspeito para comentar a nova fase do caso.
Em Pernambuco, denúncias de violência contra a mulher podem ser feitas pelo 180 (Central de Atendimento à Mulher), que funciona 24 horas, ou pelo 190 da Polícia Militar em casos de emergência. O Disque-Denúncia da Polícia Civil também está disponível no (81) 3421-9595, assim como a Ouvidoria da Mulher, no 0800.281.8187.