Nova espécie de Spinosaurus, a "garça infernal", é descoberta no deserto do Saara
O Spinosaurus mirabilis vagava por um ambiente florestal no interior e entrava em rios para capturar peixes de grande porte
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Em um local remoto e árido do deserto do Saara, no Níger, cientistas descobriram fósseis de uma nova espécie de Spinosaurus, um dos maiores dinossauros carnívoros que já existiram. Batizada de Spinosaurus mirabilis, a espécie é notável por sua grande crista em forma de lâmina na cabeça e mandíbulas com dentes entrelaçados, adaptados para capturar peixes escorregadios. A descoberta foi publicada nesta quinta-feira (19) na revista Science.
O Spinosaurus mirabilis vagava por um ambiente florestal no interior e entrava em rios para capturar peixes de grande porte, comportando-se como uma ave pernalta moderna, uma verdadeira "garça infernal", nas palavras de um dos pesquisadores. O dinossauro tinha cerca de 12 metros de comprimento e pesava entre 5 e 7 toneladas. Viveu há aproximadamente 95 milhões de anos, durante o período Cretáceo, caçando peixes como os celacantos nos cursos d'água da região.
Sua crista craniana óssea, com cerca de 50 centímetros de altura, lembrava uma espada curva chamada cimitarra. Além dela, o animal possuía uma grande estrutura semelhante a uma vela nas costas e um focinho alongado parecido com o de um crocodilo. O nome da espécie, mirabilis, significa "impressionante" em latim, em referência à sua crista.
Duas espécies de Spinosaurus
Trata-se da segunda espécie conhecida de Spinosaurus, gênero que ganhou fama na cultura popular com os filmes Jurassic Park. A outra espécie, Spinosaurus aegyptiacus, foi nomeada em 1915 com base em fósseis encontrados no Egito. O Spinosaurus mirabilis é o único dinossauro predador semiaquático conhecido e se junta ao Tyrannosaurus, Giganotosaurus e Carcharodontosaurus entre os maiores carnívoros que já habitaram a Terra.
As duas espécies eram contemporâneas e compartilhavam o mesmo plano corporal geral, incluindo longas espinhas dorsais que formavam uma vela e crânios adaptados para caçar peixes. No entanto, o Spinosaurus mirabilis tem uma crista muito maior que a do Spinosaurus aegyptiacus, além de focinho mais alongado, dentes mais espaçados e membros posteriores mais longos.
Uma crista para exibição
Segundo os pesquisadores, a crista provavelmente servia para exibição, uma vez que parece frágil demais para ter sido usada como arma, mesmo sendo um osso sólido. Revestida de queratina — como os chifres de um touro —, pode ter tido cores vivas e sido fundamental na competição sexual ou territorial, ou ainda no reconhecimento entre indivíduos. "Trata-se de amor e vida — atrair um parceiro, defender seus locais favoritos para se alimentar", explicou o paleontólogo Paul Sereno, da Universidade de Chicago, principal autor do estudo.
O Spinosaurus mirabilis apresentava adaptações extremas para a pesca. Suas narinas eram retraídas, posicionadas mais atrás do que o normal, o que permitia submergir a maior parte do focinho na água para perseguir presas enquanto respirava normalmente. Além disso, suas fileiras superior e inferior de dentes se encaixavam perfeitamente durante a mordida, formando uma estrutura chamada interdigitação. "Seus grandes dentes cônicos sem serrilhas formam uma 'armadilha para peixes' muito eficaz para perfurar e prender peixes escorregadios nas mandíbulas", afirmou o paleontólogo Daniel Vidal, coautor do estudo.
O golpe de misericórdia na hipótese aquática
Os fósseis do Spinosaurus aegyptiacus foram encontrados no Egito e em Marrocos, próximos à costa cretácea do Mar de Tétis. Isso levou alguns cientistas a teorizarem que o Spinosaurus era totalmente aquático, nadando em águas abertas e mergulhando em busca de presas em ambiente marinho. No entanto, os fósseis do Spinosaurus mirabilis foram encontrados no interior, a cerca de 500 a 1.000 quilômetros da costa oceânica mais próxima. Esse fato, aliado a aspectos da anatomia do animal, indica que o Spinosaurus era um predador de águas rasas, e não totalmente aquático. Sereno classificou a descoberta como "o golpe de misericórdia para a hipótese aquática".
Os fósseis foram descobertos em Jenguebi, uma localidade remota do Saara com afloramentos de arenito ricos em fósseis, cercados por dunas de areia. Na expedição de 2022, os pesquisadores partiram da cidade de Agadez em comboio e dirigiram fora da estrada por quase três dias, frequentemente ficando presos na areia. A viagem valeu a pena: eles encontraram partes de três crânios de Spinosaurus mirabilis e outros ossos, além de fósseis de outras criaturas.
Há muito ofuscado pelo T. rex no imaginário popular, o Spinosaurus agora ganha seu momento de destaque. "É um acontecimento dinossáurico", celebrou Sereno.