Beijo pode ter surgido há 21,5 milhões de anos entre primatas, aponta estudo
Pesquisas indicam que gesto antecede os humanos modernos e pode ter raízes no ancestral comum dos grandes símios
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Celebrado como símbolo de afeto no Dia dos Namorados, o beijo pode ter uma origem muito mais antiga do que se imagina. Evidências comparativas em primatas sugerem que o comportamento surgiu há pelo menos 21,5 milhões de anos, muito antes da existência dos humanos modernos.
A discussão foi apresentada no podcast Science Quickly, da revista Scientific American, em episódio conduzido pela jornalista Kendra Pierre-Louis. A convidada foi a bióloga evolucionista Matilda Brindle, pesquisadora da University of Oxford, que investiga a origem e as funções sociais de comportamentos afiliativos e sexuais entre primatas.
O que é considerado beijo na ciência?
Para fins científicos, o beijo é definido como um contato boca a boca não agressivo, entre indivíduos da mesma espécie, sem troca de alimento. A definição ajuda a diferenciar o gesto de práticas como a pré-mastigação — quando adultos transferem comida aos filhotes — que pode parecer semelhante, mas tem outra função.
Segundo Brindle, o beijo já foi documentado em 168 culturas humanas, mas apenas 46% apresentam o chamado beijo romântico ou sexual. Entre primatas, o comportamento também aparece: todos os grandes símios, com exceção de uma espécie de gorila, demonstram algum tipo de contato labial compatível com a definição científica. Há registros semelhantes em macacos e babuínos.
A partir da reconstrução evolutiva, a pesquisadora argumenta que o ancestral comum desses primatas provavelmente já apresentava o comportamento, o que empurra sua origem para dezenas de milhões de anos atrás.
Para que serve o beijo?
No caso humano, a ciência trabalha com duas hipóteses principais para o beijo romântico ou sexual:
- Avaliação de parceiro: o contato próximo permitiria a troca de sinais químicos e biológicos que ajudam a identificar compatibilidade genética — algo relevante em espécies com alto investimento parental.
- Preparação para a cópula: o beijo funcionaria como estímulo fisiológico, favorecendo condições corporais associadas ao sucesso reprodutivo.
Além do aspecto romântico, o beijo também desempenha funções sociais. Entre humanos e outros primatas, o contato labial pode ocorrer em interações entre pais e filhos ou em rituais de reconciliação após conflitos.
Brindle cita como exemplo os chimpanzés, conhecidos por comportamentos agressivos, mas que frequentemente se beijam após confrontos, ajudando a reduzir tensões e restaurar vínculos no grupo — um elemento essencial para a organização social da espécie.
E os neandertais?
A pesquisa também sugere que os Neandertais podem ter se beijado. A hipótese surge a partir da reconstrução da árvore evolutiva e de estudos sobre microrganismos orais compartilhados entre humanos antigos e parentes extintos, indicando contatos próximos e frequentes compatíveis com troca de saliva.
Embora hoje seja amplamente associado ao romantismo, o beijo parece ter raízes profundas na história evolutiva dos primatas — funcionando não apenas como expressão de amor, mas como ferramenta biológica e social ao longo de milhões de anos.