31 de julho de 2025
DIPLOMACIA

Lula evita recusa direta e propõe mudanças a Trump sobre Conselho da Paz

Presidente condiciona entrada do Brasil a revisão do estatuto e defende foco humanitário em Gaza, com participação da Palestina

Por Redação
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Lula e Donald Trump - Foto: Ricardo Stuckert/PR

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) evitou uma negativa direta ao convite dos Estados Unidos para que o Brasil integre o Conselho da Paz proposto por Donald Trump e apresentou ressalvas ao modelo durante um telefonema com o republicano, nesta segunda-feira (26). Na conversa, que durou cerca de 50 minutos, Lula indicou pontos do estatuto que o governo brasileiro considera incompatíveis com a política externa do país e sugeriu mudanças na estrutura do órgão.

Segundo nota divulgada pelo Planalto, Lula defendeu que o conselho tenha atuação restrita à dimensão humanitária e à situação da Faixa de Gaza, além de prever um assento para a Palestina nos debates. A avaliação do governo é de que a proposta, como está, amplia excessivamente o escopo de atuação e concentra poder decisório nos Estados Unidos.

De acordo com auxiliares da diplomacia brasileira, o estatuto apresentado por Washington permite que o conselho atue em qualquer área de conflito que os EUA considerem relevante, o que vai além da justificativa inicial ligada à guerra em Gaza. Outro ponto sensível, segundo o Planalto, é a ausência da Autoridade Palestina na elaboração do texto, apesar de o conflito palestino-israelense ter motivado a criação do órgão.

A proposta também enfrenta resistência por prever presidência fixa dos Estados Unidos, sem rodízio entre os membros, e por estabelecer uma espécie de “governança por assinatura”, com a exigência de contribuição de US$ 1 bilhão para garantir assento permanente. Além disso, Trump já teria sinalizado que não aceita emendas ao estatuto, cabendo aos países apenas aderir ao modelo pronto.

Nesse cenário, a posição do governo brasileiro é de que o país só consideraria participar se o conselho fosse renegociado desde a origem, com regras formuladas de forma coletiva. Diplomatas classificam o desenho atual como uma “paz mercantil”, na qual o peso das decisões estaria condicionado à capacidade financeira dos membros.

A discussão sobre a eventual adesão do Brasil deve ficar para o segundo semestre, quando o tema pode ganhar força durante a Assembleia Geral da ONU, em setembro. Para o Itamaraty, um conselho criado sob liderança fixa dos EUA e com apoio explícito a apenas um dos lados do conflito gera preocupação e desequilíbrio.

Reforma da ONU no radar

Ao mesmo tempo, o governo Lula vê o debate como uma oportunidade para reforçar a defesa de uma reforma do Conselho de Segurança da ONU. A avaliação é de que o avanço de iniciativas unilaterais, como a de Trump, expõe a paralisia do sistema multilateral diante de crises internacionais.

A estratégia brasileira é usar o tema para articular, junto a outros países, uma pressão por mudanças que tornem a ONU mais representativa e eficaz. Diplomatas avaliam que, sem reforma, o espaço será ocupado por modelos alternativos liderados por grandes potências.

Nos bastidores, há também uma leitura pragmática: se o conselho proposto pelos EUA conseguir resultados concretos em Gaza, isso seria visto como um sinal definitivo do esgotamento institucional das Nações Unidas, incapazes, até agora, de mediar o fim do conflito.