31 de julho de 2025
saúde

Dirigente da Fiocruz detalha como expertise acumulada permitiu resposta ágil na pandemia e projeta vacina nacional de mRNA

A avaliação é da diretora do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos da Fiocruz (Bio-Manguinhos), Rosane Cuber, uma das principais responsáveis por trazer e nacionalizar a vacina de Oxford/AstraZeneca no Brasil

Por Redação
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A avaliação é da diretora do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos da Fiocruz (Bio-Manguinhos), Rosane Cuber, uma das principais responsáveis por trazer e nacionalizar a vacina de Oxford/AstraZeneca no Brasil - Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

A rapidez no desenvolvimento das vacinas contra a covid-19, vista com desconfiança por movimentos negacionistas, foi na verdade fruto de um imenso acúmulo científico prévio e de uma mobilização global sem precedentes. A avaliação é da diretora do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos da Fiocruz (Bio-Manguinhos), Rosane Cuber, uma das principais responsáveis por trazer e nacionalizar a vacina de Oxford/AstraZeneca no Brasil. Em entrevista à TB Brasil, ela detalhou a jornada que começou em março de 2020 e resultou na entrega de 190 milhões de doses ao Programa Nacional de Imunizações (PNI).

Rosane explica que as vacinas de RNA e de vetor viral, como a da Pfizer e a da AstraZeneca, não "surgiram do nada". "Elas só passaram por uma adequação. Não surgiram do nada. Tem muito acúmulo de pesquisa, muito acúmulo de conhecimento que foi aproveitado para o desenvolvimento rápido", afirma. O trabalho no Bio-Manguinhos começou assim que a OMS decretou a pandemia, com a produção de testes de diagnóstico e, em paralelo, a prospecção de vacinas candidatas para uma possível transferência de tecnologia.

A negociação com Oxford e AstraZeneca começou em agosto de 2020 e exigiu uma mobilização total do instituto. "A gente conseguiu porque nós paramos todas as outras atividades do instituto. Os grupos todos se voltaram para esse único objetivo", conta. A primeira remessa de vacinas prontas chegou em janeiro de 2021. Em fevereiro, o instituto já fazia o envase do Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA) importado e, um ano depois, em fevereiro de 2022, passou a produzir o IFA nacionalmente, entregando uma vacina 100% brasileira.

O legado dessa operação vai muito além de ter poupado cerca de 300 mil vidas em 2021, segundo estimativas. A experiência qualificou a estrutura fabril e abriu portas para novos produtos. Uma das heranças diretas é uma terapia avançada para Atrofia Muscular Espinhal (AME), que utiliza a mesma plataforma de vetor viral da vacina da AstraZeneca e promete reduzir drasticamente os custos de um tratamento que hoje chega a R$ 7 milhões. Os estudos clínicos foram aprovados pela Anvisa e começam este ano.

Além disso, o Bio-Manguinhos iniciará em 2025 os testes em humanos de uma vacina contra a covid-19 com tecnologia de RNA mensageiro (mRNA), a mesma da Pfizer. "Se eu produzo essa vacina nacionalmente, eu reduzo o preço, e tem uma questão de soberania", defende Rosane. A plataforma de mRNA já era estudada no instituto para tratamentos contra o câncer, e a pandemia acelerou sua aplicação em vacinas.

O desempenho durante a crise elevou o instituto a um novo patamar global. O Bio-Manguinhos foi escolhido como um dos seis centros de produção mundial pela Coalização para Inovações em Preparação para Epidemias (CEPI) e como hub regional da OMS para desenvolvimento de produtos de mRNA. "O nosso direcionamento não é o lucro, mas sim aquilo que é lucro para a sociedade. A gente faz entregas para a população brasileira", conclui a diretora, destacando o papel estratégico de um laboratório público na preparação para futuras emergências sanitárias.