31 de julho de 2025
levantamento

Estudo genético sobre depressão revela que mulheres são mais propensas a desenvolver o transtorno

A pesquisa identificou 16 variantes significativas associadas ao TDM em mulheres, contra oito nos homens

Por Redação
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A pesquisa identificou 16 variantes significativas associadas ao TDM em mulheres, contra oito nos homens - Foto: Freepik

A maior metanálise genética já realizada sobre o Transtorno Depressivo Maior, publicada em agosto de 2025 na revista Nature Communications, traz uma resposta contundente a um antigo debate científico: as mulheres carregam uma carga genética mais significativa para a depressão do que os homens. Analisando dados de mais de 195 mil casos, o estudo conduzido pela Universidade de Queensland, na Austrália, não apenas confirma essa disparidade biológica fundamental, mas também identifica, pela primeira vez, uma variante genética de risco localizada no cromossomo X que atua exclusivamente no sexo masculino.

Os resultados vão além de simplesmente quantificar diferenças. Eles revelam um panorama complexo de sobreposições e particularidades. A maioria das variantes genéticas que influenciam o transtorno é compartilhada entre homens e mulheres, mas não de forma idêntica em termos de efeito. O que se destaca, no entanto, é que as mulheres possuem um espectro mais amplo de fatores de risco hereditários. A pesquisa identificou 16 variantes significativas associadas ao TDM em mulheres, contra oito nos homens.

Além disso, o genoma feminino apresenta uma sobreposição genética mais forte entre depressão e características como obesidade e síndrome metabólica, sugerindo que as vias biológicas para a doença podem estar mais entrelaçadas com outras condições no sexo feminino. Já as variantes que impactam os homens parecem ser um subconjunto daquelas encontradas nas mulheres, com a intrigante adição da variante exclusiva no cromossomo X.

Este avanço genético, porém, não opera num vácuo. Ele se soma a um contexto epidemiológico global bem estabelecido e alarmante. Estatísticas da Organização Mundial da Saúde já mostravam que as mulheres têm quase o dobro de risco de desenvolver depressão ao longo da vida, uma diferença que se manifesta a partir dos 12 anos, atinge um pico na adolescência e se mantém estável na idade adulta. No Brasil, a disparidade é ainda mais gritante: a Pesquisa Nacional de Saúde de 2019 apontou que 14,7% das mulheres adultas receberam diagnóstico de depressão, contra 5,1% dos homens. O psiquiatra Ricardo Jonathan Feldman, do Hospital Israelita Einstein, contextualiza esses números.

“De forma geral, o estudo confirma que a depressão tem uma influência genética, e é poligênica: vários genes podem contribuir para maior ou menor risco”, afirma. “Mas a genética não determina, sozinha, se uma pessoa terá depressão. As mulheres têm mais depressão, epidemiologicamente falando, por vários motivos: além da questão genética apontada pelo estudo, há fatores ambientais, como violência, traumas, desigualdades sociais e salariais, a sobrecarga cotidiana e influências hormonais.”

A própria gênese do estudo australiano partiu de um impasse. Pesquisas anteriores sobre o tema chegavam a conclusões contraditórias, algumas sugerindo maior influência genética em mulheres, outras não encontrando diferença alguma. Segundo os autores, essa falta de consenso era fruto principalmente de metodologias distintas, especialmente na definição dos casos de depressão. Para resolver a questão, a nova metanálise testou sistematicamente quatro hipóteses principais: se as variantes de risco atuam com magnitudes diferentes em cada sexo; se existem variantes exclusivas; se o cromossomo X tem um papel direto; e se variantes com efeitos em múltiplas características ajudam a explicar as diferenças. As respostas, em grande medida, foram afirmativas para as três últimas, desenhando um mapa genético mais nítido e diferenciado da doença.

Apesar do seu impacto, a pesquisa traz importantes ressalvas em suas limitações. A amostra, embora colossal, era desequilibrada, com aproximadamente o dobro de casos de mulheres (130.471) em relação aos homens (64.805). Além disso, o estudo focou exclusivamente em indivíduos de ancestralidade europeia, o que impede a generalização dos resultados para populações diversas como a brasileira.

Os pesquisadores também alertam para possíveis fatores de confusão nas análises e para a ausência de procedimentos de controle de qualidade específicos por sexo, o que pode ter introduzido vieses técnicos. Mesmo considerando essas limitações, o trabalho é um marco. Ele fornece uma base sólida para que abordagens clínicas futuras, incluindo o desenvolvimento de novos tratamentos e estratégias de prevenção, possam se beneficiar de uma visão que considera as diferenças genéticas específicas entre homens e mulheres, pavimentando o caminho para uma medicina mais precisa e personalizada no campo da saúde mental.