31 de julho de 2025
período de incerteza

Longe de casa, venezuelanos acompanham com angústia e esperança a crise no país de origem

Jornalista radicada em SP relata anos de escassez, falta de liberdade de imprensa e diz sentir "alívio" com a queda do ex-presidente, mas teme pela segurança dos familiares que ficaram

Por Redação
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Jornalista radicada em SP relata anos de escassez, falta de liberdade de imprensa e diz sentir "alívio" com a queda do ex-presidente, mas teme pela segurança dos familiares que ficaram - Foto: Arquivo Pessoal

Venezuelanos que vivem dentro e fora do país enfrentam um período de grande incerteza após o ataque em larga escala dos Estados Unidos à Venezuela e a captura do presidente Nicolás Maduro na madrugada do último sábado (3). Entre medo pela segurança de familiares e uma frágil esperança por mudanças, a comunidade vive dias de tensão e expectativa.

A jornalista Paola Romero Cova, 32 anos, que mora há três anos em Presidente Prudente (SP), descreveu ao g1 o turbilhão emocional da última semana. "O sentimento que a gente tem agora não é o mesmo de quando recebemos a notícia do que estava acontecendo no país. É um sentimento incomum. No momento, sentimos muito medo, principalmente porque temos família lá", relatou.

Atualmente trabalhando como operadora de caixa em um supermercado, Paola deixou a Venezuela em busca de uma vida melhor para seu filho de 11 anos, acompanhada da mãe e da avó da criança. Apesar da angústia, ela também sente um certo alívio.

"Depois que a gente viu que foi uma captura de uma pessoa que também já fez muito mal, eu senti gratidão. Justiça e alívio também, porque é o começo do fim."

Paola relembrou as dificuldades extremas enfrentadas na Venezuela: "Sou jornalista, e trabalhar lá é muito difícil. Querer falar o que realmente precisa ser dito e não poder é muito difícil".

Ela descreveu anos de escassez crônica: "Houve períodos em que, mesmo com pouco dinheiro, não havia produtos disponíveis. Em outros, os produtos existiam, mas o dinheiro não era suficiente. Havia uma ansiedade diária sobre o que se comeria no dia seguinte".

A infraestrutura básica também entrou em colapso: "Ficar até 10 horas sem eletricidade, passar dias sem água em casa e sem gás para cozinhar são situações básicas que se tornaram extremamente complicadas".

Cenário político ainda instável


Após a captura de Maduro, as Forças Armadas venezuelanas reconheceram no domingo (4) a vice-presidente Delcy Rodríguez como presidente interina. No entanto, o presidente americano Donald Trump afirmou que os EUA estão "no comando" da Venezuela e descartou a realização de eleições no país em 30 dias.

Enquanto isso, o governo interino venezuelano ordenou a busca e captura de todos os envolvidos no apoio ao ataque americano. Na segunda-feira (5), 14 jornalistas — incluindo 11 de veículos internacionais — foram detidos enquanto cobriam eventos em Caracas. Todos foram liberados posteriormente, mas um jornalista estrangeiro foi deportado.

Para Paola, deixar a Venezuela foi uma decisão dolorosa, mas necessária. "Deixar a Venezuela é uma busca por alívio. Não é fácil sair de casa e recomeçar do zero em outra cultura, língua e clima. Mas sou profundamente grata pela recepção que tive no Brasil".

"Como mãe, quero que meu filho tenha uma realidade diferente", completou, resumindo o sentimento de muitos venezuelanos que, mesmo longe, acompanham com esperança cautelosa os desdobramentos no país de origem.