Tren de Aragua: como facção venezuelana se aliou ao PCC e criou raízes no Brasil
A expansão ocorre por meio de acordos que envolvem tráfico de drogas, controle territorial e exploração de rotas internacionais
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A organização criminosa Tren de Aragua, originária da Venezuela, já estabeleceu bases operacionais no Brasil e atua em conexão direta com facções locais, em especial o Primeiro Comando da Capital (PCC). A expansão ocorre por meio de acordos que envolvem tráfico de drogas, controle territorial e exploração de rotas internacionais, criando uma engrenagem bilionária que impacta a segurança pública em vários estados.
A aproximação entre o Tren de Aragua e o PCC é essencialmente pragmática. Enquanto o grupo venezuelano oferece acesso a rotas internacionais de drogas e mão de obra, o PCC proporciona capilaridade, domínio territorial e expertise no varejo do tráfico. A parceria permite a ampliação da circulação de cocaína no país, com reflexos diretos na dinâmica criminal em fronteiras e grandes cidades.
A facção venezuelana já atua em ao menos seis estados brasileiros, incluindo São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Roraima. Sua estratégia combina violência seletiva, intimidação e cooptação de operadores locais, facilitando a inserção em mercados já dominados por facções nacionais.
A aliança criminosa já aparece em processos judiciais. Em um caso de Roraima, dois venezuelanos — Pedro José Odreman Brito e Moisés Rafael Martinez Peinado — foram presos em junho de 2025 com 755,33 gramas de cocaína e 49,39 gramas de crack. Segundo a acusação, atuavam em benefício do Tren de Aragua.
A prisão preventiva dos dois foi mantida pela Justiça devido à gravidade dos fatos e ao risco à ordem pública. O processo ilustra como a facção venezuelana deixou de ser um fenômeno externo para se materializar em investigações e condenações no Brasil.
Inicialmente, membros do Tren de Aragua chegaram ao Brasil passando-se por refugiados, explica o delegado Wesley Costa Oliveira, titular da Delegacia de Repressão às Organizações Criminosas (Draco) de Roraima. Com o tempo, ganharam força e passaram a disputar territórios, provocando aumento nos índices de homicídio. Em Boa Vista, os assassinatos saltaram de 90 em 2020 para 127 em 2021.
A facção também se tornou o principal fornecedor de armas para o PCC e o Comando Vermelho (CV), além de garantir o transporte de cocaína colombiana através do território venezuelano.
Tráfico de mulheres e violência extrema
Uma das atividades do grupo é o tráfico de mulheres venezuelanas para exploração sexual no Brasil. Criminosos recrutam vítimas com promessas de melhores condições de vida, mas as submetem à prostituição forçada, cobrando taxas abusivas. Muitas acabam se viciando em drogas fornecidas pelo próprio grupo, aumentando suas dívidas.
“Em alguns casos, a conta não fecha, e as mulheres são mortas, para dar exemplo”, relata o delegado Wesley. Na véspera do Natal de 2024, a polícia localizou um cemitério clandestino do Tren de Aragua em Boa Vista, com dez corpos — cinco deles mulheres com sinais de desmembramento.