31 de julho de 2025
Poder eleitoral

A democracia começa desigual e a campanha também

Distribuição de recursos e tempo de mídia cria uma disputa desigual e dificulta a renovação política no país.

Por Pedro Jr
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Fundo eleitoral.jpg - Foto:

O desenho atual do sistema eleitoral brasileiro não apenas organiza a disputa, ele a direciona. A forma como o fundo eleitoral e o tempo de rádio e televisão são distribuídos cria um ambiente em que alguns entram na corrida largando metros à frente, enquanto outros já começam tentando apenas não ficar pelo caminho.

Hoje, a divisão desses ativos obedece a um critério simples: tamanho das bancadas no Congresso e desempenho nas eleições anteriores. O resultado prático é previsível. Partidos grandes consolidam vantagem estrutural antes mesmo da campanha começar, enquanto legendas médias e pequenas são empurradas para um jogo de sobrevivência política, no qual alianças e apoios viram moeda de troca para compensar a escassez de recursos.

Nesse cenário, o fundo eleitoral deixou de ser apenas um instrumento de financiamento e passou a funcionar como mecanismo de controle interno. A legislação entrega às direções nacionais dos partidos o poder quase absoluto de decidir quem recebe, quanto recebe e quando recebe. Isso fortalece as cúpulas, enfraquece a base e reduz drasticamente o espaço para candidaturas independentes ou fora das estruturas tradicionais.

A consequência é clara: renovar ficou mais difícil. Para quem é novo, para quem tenta construir uma alternativa fora dos grandes arranjos ou mesmo para quem ousa propor uma terceira via, o sistema se torna um labirinto com poucas saídas. Não basta ter proposta, discurso ou conexão com o eleitor. É preciso antes vencer a barreira do acesso aos recursos e à exposição.

Mesmo com o crescimento das redes sociais e das plataformas digitais, o tempo de rádio e televisão continua sendo um ativo político relevante. Ele ainda pesa e muito nas negociações. As regras estimulam alianças amplas, muitas vezes incoerentes do ponto de vista programático, unidas menos por ideias e mais pela soma de minutos no horário eleitoral e de cifras no caixa.

No fim, o modelo atual não apenas organiza a disputa: ele molda o resultado possível. E enquanto a lógica for a de proteger quem já é grande e dificultar a entrada de novos atores, a promessa de pluralidade e renovação seguirá sendo mais discurso do que prática.