31 de julho de 2025
MUNDO

A cidade onde viver embaixo da terra é a única forma de escapar do calor extremo

No deserto australiano, moradores constroem casas subterrâneas para enfrentar temperaturas que passam dos 50 °C

Por Redação
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A cidade onde viver embaixo da terra é a única forma de escapar do calor extremo - Foto: Imagem de Lodo27 em Wikipédia – https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Coober_Pedy_-_Dug-out_in_Coober_Pedy.jpg

Em uma das regiões mais áridas do planeta, moradores encontraram uma solução radical para sobreviver ao calor: morar debaixo da terra. Em Coober Pedy, cidade isolada no interior da Austrália, viver em cavernas escavadas na rocha não é curiosidade turística, mas uma questão de sobrevivência diante de temperaturas que desafiam os limites humanos, segundo reportagem da BBC News.

Localizada a cerca de 850 quilômetros ao norte de Adelaide, a cidade surge no meio do deserto como um cenário quase lunar. Na superfície, o que se vê são montes de areia clara, tubos de ventilação espalhados pelo chão e poucas construções aparentes. Mas é no subsolo que Coober Pedy realmente existe.

Cerca de 60% da população, estimada em 2,5 mil habitantes, vive em casas escavadas diretamente na rocha. Essas moradias subterrâneas mantêm a temperatura estável durante todo o ano, em torno de 23 °C, enquanto do lado de fora os termômetros podem ultrapassar os 52 °C no verão e cair para perto de zero no inverno.

O nome Coober Pedy vem de uma expressão aborígene que significa, em tradução livre, “homem branco em um buraco”, definição que resume bem o modo de vida local.

Refúgio contra o clima extremo

Durante os meses mais quentes, o calor é tão intenso que aparelhos eletrônicos precisam ser refrigerados e há relatos de aves que não resistem às altas temperaturas. Nessas condições, morar acima do solo se torna caro e, muitas vezes, inviável.

“Para viver na superfície, você gasta uma fortuna com refrigeração. Aqui embaixo, a temperatura é confortável o tempo inteiro”, explica Jason Wright, morador da cidade e administrador de uma área de camping subterrâneo.

Além do conforto térmico, as casas subterrâneas reduzem drasticamente o consumo de energia elétrica. Embora Coober Pedy produza boa parte da própria eletricidade com fontes solar e eólica, o uso constante de ar-condicionado seria financeiramente insustentável para muitos moradores.

Casas baratas, silêncio e isolamento

Outro fator que chama atenção é o preço dos imóveis. Casas subterrâneas de três quartos podem custar, em média, 40 mil dólares australianos, valor muito inferior ao praticado em grandes cidades do país.

Os moradores também destacam benefícios inesperados: ausência de insetos, silêncio quase absoluto e nenhuma poluição luminosa. “As moscas não entram. Elas não gostam do escuro e do frio”, relata Wright.

Algumas residências vão além do básico e incluem salões amplos, banheiros sofisticados e até piscinas subterrâneas. Há casos em que reformas acabam revelando opalas incrustadas nas paredes — não por acaso, Coober Pedy nasceu como um dos principais polos de mineração da pedra preciosa na Austrália.

Uma ideia antiga que ganha novo sentido

Viver embaixo da terra não é novidade na história da humanidade. Civilizações antigas já recorreram a cavernas e cidades subterrâneas para escapar de climas extremos, como na Capadócia, na Turquia, e em assentamentos históricos no Oriente Médio e nos Estados Unidos.

O diferencial de Coober Pedy está na combinação entre o clima seco e o tipo de rocha da região, que permite escavações simples, estruturas estáveis e ambientes amplos sem grandes reforços.

Especialistas alertam, no entanto, que esse modelo não funcionaria da mesma forma em regiões úmidas, onde infiltrações, mofo e problemas de ventilação são comuns.

Um possível caminho diante do aquecimento global

Com ondas de calor cada vez mais intensas em diferentes partes do mundo, o estilo de vida subterrâneo de Coober Pedy volta ao debate como uma possível alternativa de adaptação às mudanças climáticas.

“Quando o calor aperta, aqui embaixo tudo fica fácil”, resume Wright.

Se o planeta continuar aquecendo, cidades escondidas sob a terra — hoje vistas como excentricidade — podem deixar de ser exceção e se tornar uma resposta concreta à crise climática.