31 de julho de 2025
Política Internacional

Brasil se recusa a assinar comunicado do Mercosul sobre Venezuela por temer respaldo a ação militar dos EUA

Liderado pela Argentina, documento pede restauração democrática no país vizinho, mas Brasil e Uruguai se abstêm; Planalto avalia que texto poderia ser lido como aval a intervenção militar norte-americana

Por redação
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Os Estados Unidos, que não reconhecem Maduro como líder legítimo, justificam as apreensões de navios como combate ao narcotráfico. - Foto: Divulgação

O Brasil se recusou a assinar um comunicado do Mercosul que pedia o restabelecimento da democracia e o respeito aos direitos humanos na Venezuela, durante a cúpula do bloco realizada neste sábado (20) em Foz do Iguaçu (PR). A decisão, compartilhada pelo Uruguai, foi tomada pelo governo Lula com base na avaliação de que o documento — liderado pela Argentina — poderia ser interpretado pelos Estados Unidos como um respaldo a uma eventual ação militar contra o governo de Nicolás Maduro.

O comunicado foi assinado pelos presidentes da Argentina, Javier Milei; do Paraguai, Santiago Peña; e do Panamá, José Raúl Mulino, além de autoridades da Bolívia, Equador e Peru. O texto expressa “profunda preocupação” com a crise migratória, humanitária e social na Venezuela e defende “a articulação de mecanismos para a defesa da democracia”, sem mencionar a tensão militar com os EUA.

Divisão estratégica no bloco
Enquanto Milei chamou Maduro de “narcoterrorista” e elogiou a pressão militar norte-americana, Lula advertiu que uma intervenção na Venezuela geraria uma “catástrofe humanitária” e criaria um precedente perigoso. “Passadas mais de quatro décadas desde a Guerra das Malvinas, o continente sul-americano volta a ser assombrado pela presença militar de uma potência extrarregional”, afirmou o presidente brasileiro em seu discurso.

A posição brasileira reflete uma cautela diplomática: embora não tenha reconhecido oficialmente a vitória de Maduro nas eleições de julho de 2024, o Planalto busca evitar qualquer sinal que possa inflamar o cenário de confronto. A Venezuela, suspensa do Mercosul desde 2017 por ruptura da ordem democrática, é alvo de um cerco naval dos EUA, que já interceptou vários petroleiros no Caribe.

Contexto de tensão regional
Os Estados Unidos, que não reconhecem Maduro como líder legítimo, justificam as apreensões de navios como combate ao narcotráfico. Já o governo venezuelano acusa Washington de cobiçar suas reservas petrolíferas — o país é um dos maiores produtores globais de petróleo, commodity vital para sua economia.

A cúpula do Mercosul evidenciou uma fratura estratégica no bloco: de um lado, Argentina e aliados pressionam por uma posição mais dura contra Caracas; do outro, Brasil e Uruguai priorizam uma solução pacífica, temendo que a escalada militar desestabilize toda a região. O episódio ocorre em meio a conversas telefônicas recentes de Lula com Maduro e Donald Trump, na tentativa de mediar uma saída diplomática para a crise.