Saiba qual é a substância que aparece na maioria dos testes toxicológicos para CNH
Levantamento do Ministério dos Transportes, divulgado por O GLOBO, mostra que a droga lidera reprovações em exames de motoristas
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Uma substância específica é responsável pela maior parte das reprovações em exames toxicológicos exigidos para a Carteira Nacional de Habilitação (CNH). De acordo com levantamento obtido pelo jornal O GLOBO junto ao Ministério dos Transportes, a cocaína — ou seus metabólitos — esteve presente em cerca de 70% dos testes positivos realizados em 2025 para candidatos às categorias C, D e E.
Somente neste ano, aproximadamente 97 mil postulantes à habilitação para caminhões, ônibus e carretas foram reprovados no exame. Em cerca de 67 mil casos, a detecção apontou consumo de cocaína.
O dado ganha ainda mais relevância diante da mudança prevista na legislação: a partir do próximo ano, o exame toxicológico negativo passará a ser exigido também para quem busca a primeira habilitação nas categorias A e B, destinadas a motos e carros.
Entre as substâncias mais identificadas está a benzoilecgonina, principal metabólito da cocaína e indicador do uso da droga no organismo, com quase 46 mil registros. Também aparecem com frequência o cocaetileno — formado quando há consumo simultâneo de cocaína e álcool — e a norcocaína, outro subproduto da droga.
Em entrevista ao O GLOBO, o médico toxicologista Álvaro Pulchinelli Júnior, presidente da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica, explica que o uso da cocaína gera uma falsa sensação de disposição.
Segundo ele, o efeito estimulante mascara o cansaço extremo, compromete o julgamento do motorista e aumenta significativamente o risco de acidentes.
Além da cocaína, os exames também identificaram outras substâncias em menor proporção. Os opiáceos, presentes em medicamentos como codeína e morfina, apareceram em 19.275 testes, enquanto as anfetaminas — comuns em estimulantes conhecidos como “rebite” — foram detectadas em 10.415 exames.
De acordo com Pulchinelli, embora tenham efeitos diferentes, ambas afetam diretamente a capacidade de condução, seja pela lentidão, seja por estados de euforia seguidos de letargia.
Dados citados pelo O GLOBO mostram que a obrigatoriedade do exame toxicológico para motoristas profissionais, em vigor desde 2016 com a chamada Lei do Caminhoneiro, trouxe impactos positivos.
Pesquisa do Ministério Público do Trabalho e do Tribunal Regional do Trabalho em Mato Grosso do Sul apontou queda na detecção de drogas em exames no estado, de 34% em 2015 para 13,9% em 2019.
Outro levantamento, do SOS Estradas, indica redução de 34% nos acidentes com caminhões e de 45% nos envolvendo ônibus entre 2015 e 2017.
Para o coordenador da entidade, Rodolfo Rizzotto, ouvido pelo jornal, a medida ajudou a salvar vidas, reduzir abusos contra motoristas e dificultar a atuação do crime organizado. Ele defende, no entanto, o reforço da fiscalização e a adoção de exames toxicológicos aleatórios como estratégia preventiva.