Os Donos do Jogo: série da Netflix espelha a vida real dos bicheiros cariocas
Nova produção do streaming traz personagens com notáveis semelhanças com figuras históricas do jogo do bicho, como Castor de Andrade e as irmãs Garcia
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A nova série da Netflix, "Os Donos do Jogo", mergulha os espectadores no mundo centenário e clandestino do jogo do bicho no Rio de Janeiro. Embora se trate de uma obra de ficção, as conexões com a realidade são inegáveis e saltam aos olhos. O enredo não apenas se inspira em dramas amplamente noticiados em páginas policiais, mas também ecoa investigações retratadas em documentários como "Vale o Escrito", disponível na Globoplay, criando uma narrativa que confunde deliberadamente a fronteira entre a ficção e a vida real.
Uma das figuras mais emblemáticas da série, Galego, interpretado por Chico Diaz, é uma clara referência ao lendário bicheiro Castor de Andrade. Assim como sua contraparte real, Galego é vaidoso, veste ternos impecáveis e possui uma fala mansa que esconde uma astúcia cinza. Castor foi um dos fundadores do império e um patrono muito respeitado, conhecido por seu apoio à Mocidade Independente e ao Bangu Atlético Clube, legado que a série traduz no respeito que o personagem impõe à cúpula do crime.
A trama também explora as dinâmicas familiares e de gênero do submundo, espelhando a história real das irmãs Tamara e Shana Garcia, filhas do bicheiro Maninho Garcia. Na série, as irmãs Suzana (Giullia Buscaino) e Mirna (Mel Maia) enfrentam o mesmo obstáculo: a dificuldade de herdar e comandar o negócio do pai em um ambiente dominado por homens, precisando de uma figura masculina para legitimar seu poder perante a organização criminosa.
Outro paralelo notável é com a figura de Zé Personal, transposta no personagem Búfalo, vivido por Xamã. A semelhança vai além da aparência física e chega à trajetória: ambos ascendem ao poder ao se casarem com as herdeiras de um grande bicheiro. A obsessão por academias e artes marciais, além das suspeitas em torno de suas mortes – ligadas a disputas de herança familiar –, são elementos da vida real que foram diretamente incorporados ao enredo da produção.
A luta pelo poder após a morte do patriarca é central na história, inspirada nas disputas reais que se seguiram aos falecimentos de Miro e Maninho Garcia. Na ficção, o personagem Jorge Guerra (Roberto Pirillo) pode ser uma fusão de Miro com Anísio Abrãao David, um dos patronos mais respeitados do carnaval carioca, conhecido por seu comando na Beija-Flor de Nilópolis. Já o personagem Profeta (André Lamoglia) parece ser uma combinação do temperamento explosivo de Maninho com a trajetória de Bernardo Bello, que chegou ao topo ao se casar com uma herdeira de uma das famílias dominantes.
Por fim, a série constrói a figura de Xavier (Otávio Muller), um bicheiro de aparência cordata e "gente boa" que esconde seus segredos mais sombrios. Esse perfil é uma releitura fiel de Piruinha, conhecido no meio por sua imagem pacífica, que contrastava fortemente com a violência inerente ao crime organizado que comandava. A dualidade entre a imagem pública e a realidade privada é um dos trunfos narrativos da produção.