Tremembé: Fetiche em presos existe mesmo? Especialista explica o fenômeno
Sexólogo detalha a psicologia por trás do fetiche em pessoas encarceradas, que ganhou os holofotes com a trama da novela e a história real que a inspirou
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A série "Tremembé" colocou em evidência um tema polêmico ao retratar o romance entre Daniel Cravinhos e Celina. A personagem é inspirada na história real de Alyne Bento, ex-esposa de Cravinhos. Na vida real, Alyne, filha de uma agente penitenciária, conheceu o criminoso durante uma visita ao irmão no presídio. A trama ficou ainda mais intensa quando, na série, a mãe da jovem, ao descobrir o caso, acusa a filha de ter "fetiche em presos".
Alyne e Daniel Cravinhos se conheceram no presídio em 2011, oficializaram a união em 2014 e permaneceram juntos até 2022. Em entrevista ao escritor Ulisses Campbell, Alyne fez revelações íntimas sobre a relação, afirmando que enfrentaram dificuldades, mas que foram muito felizes. "O Daniel é a pessoa mais afetuosa do mundo. É um homem cheio de amor para dar. Muito feliz mesmo! Às vezes, acordava no meio da noite com ele me cobrindo de beijos", declarou. Ela também relembrou os desafios, como serem expulsos de um restaurante durante uma lua de mel, e comentou sobre o assédio que ele sofria: "É difícil concorrer com o mundo aqui fora. O Daniel tem fome de liberdade. Ele é muito assediado por mulheres".
O que é a Hibristofilia, o fetiche por criminosos?
Mas, afinal, o que é esse "fetiche em presos" mencionado na série? O sexólogo Vitor Mello explica que essa atração é classificada como uma parafilia e tem um nome específico: hibristofilia. "Esse termo se refere à atração sexual ou emocional por pessoas que cometeram crimes ou estão em situação de privação de liberdade", define o especialista.
Sob a perspectiva psicológica, Mello destaca que esse fetiche envolve uma forte carga emocional e de projeção. "A pessoa tende a idealizar o outro, muitas vezes enxergando nele alguém que precisa ser salvo, protegido ou redimido". Essa idealização, segundo ele, é frequentemente alimentada por imagens e conteúdas que circulam nas redes sociais, que nutrem o imaginário inconsciente. Dessa forma, o desejo não está direcionado para quem a pessoa realmente é, mas para o que ela representa simbolicamente – um dominador, uma vítima da sociedade ou um projeto de redenção. "Ou seja, a atração se constrói muito mais sobre fantasias e projeções emocionais do que sobre a realidade do outro", salienta.
Quais são os riscos reais desse tipo de atração?
O sexólogo Vitor Mello alerta que, quando a fantasia ultrapassa a barreira do simbólico e se materializa em um envolvimento real, podem surgir sérios riscos. "Podem surgir riscos psicológicos para quem está fetichizado e até riscos físicos, dependendo da gravidade do crime ou do perfil da pessoa encarcerada", aponta.
Mello explica que a hibristofilia tende a criar vínculos emocionais profundamente desequilibrados. "De um lado, há uma idealização intensa; a pessoa está projetando, imaginando, criando um personagem dentro da própria mente. Isso faz com que o envolvimento psicológico seja muito mais profundo e complexo do que o de um fetiche comum". Em muitos casos, a pessoa desenvolve um verdadeiro "senso de missão", acreditando piamente que pode salvar ou transformar aquele indivíduo. "Paradoxalmente, essa sensação de perigo e de desafio pode aumentar a excitação e o prazer, reforçando ainda mais o ciclo da fantasia", completa.
Por fim, o especialista destaca que a raiz desse interesse por figuras perigosas frequentemente está menos no desejo sexual e mais em questões emocionais não resolvidas. "Em muitos casos, o interesse está mais ligado a traços de baixa autoestima, histórico de relações abusivas ou à necessidade de viver emoções intensas. Ou seja, o que move esse tipo de envolvimento não é exatamente o desejo físico, mas uma busca emocional, por validação, por pertencimento ou pela sensação de excitação que o risco provoca".