Fome atinge com mais força lares chefiados por pessoas pretas, pardas e mulheres
Pesquisa mostra que 73,8% dos domicílios com insegurança alimentar grave têm responsáveis pretos ou pardos
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A fome no Brasil tem cor, gênero e idade definidos, segundo dados da Pnad Contínua sobre segurança alimentar divulgada nesta sexta-feira (10) pelo IBGE. Em 2024, 73,8% dos 2,5 milhões de lares em situação de insegurança alimentar grave - onde há redução ou falta de alimentos inclusive para crianças - eram chefiados por pessoas pretas ou pardas. Isso significa que, a cada quatro residências que vivenciaram a fome, praticamente três tinham responsáveis pretos ou pardos, embora este grupo represente 45,1% do total de domicílios do país.
A desigualdade de gênero também se mostra evidente nos números da fome. As mulheres são responsáveis por 51,8% dos lares brasileiros, mas comandam 57,6% dos domicílios em situação de insegurança alimentar grave. Quando consideradas todas as formas de insegurança alimentar (leve, moderada e grave), esse percentual sobe para 59,9%, indicando que seis em cada dez lares chefiados por mulheres enfrentam algum grau de restrição alimentar. De acordo com a pesquisadora do IBGE Maria Lucia Vieira, "a gente está falando de domicílios que costumam ter rendimentos mais baixos".
As crianças e adolescentes aparecem como as maiores vítimas da fome no recorte etário. Entre a população de 5 a 17 anos, 3,8% viviam em lares com insegurança alimentar grave, o maior percentual entre todas as faixas etárias. Já entre idosos com 65 anos ou mais, o índice cai para 2,3%. A pesquisadora Maria Lucia Vieira associa essa vulnerabilidade infantil ao fato de as regiões Norte e Nordeste - com piores índices de segurança alimentar - manterem "taxas de fecundidade mais elevadas que as demais regiões". Os dados revelam que 71,9% dos domicílios com insegurança alimentar grave ou moderada têm rendimento mensal por pessoa de até um salário mínimo.