Pesquisadores da USP alertam para risco de mosquito asiático trazer malária para áreas urbanas do Brasil
Espécie Anopheles stephensi, que se prolifera em ambientes urbanos como o Aedes aegypti, já se espalhou pela África e ameaça entrar no Brasil por portos marítimos
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Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) emitiram um alerta sobre o risco de introdução no Brasil do Anopheles stephensi, mosquito originário da Ásia e vetor potencial da malária. Diferente do Anopheles darlingi – principal transmissor da doença no país, com atuação restrita a áreas florestais –, essa espécie se adapta facilmente a centros urbanos, reproduzindo-se em recipientes com água parada, como pneus, vasos e caixas-d’água, assemelhando-se ao comportamento do Aedes aegypti.
Um estudo recente da Faculdade de Saúde Pública e do Instituto de Estudos Avançados, ambos da USP, publicado na Scientific Reports, indica que as condições climáticas e urbanas do Brasil são favoráveis à proliferação desse mosquito. A principal via de entrada seria por meio de navios em portos brasileiros. Os pesquisadores destacam a ausência de um plano estruturado de vigilância específica para esse vetor, aumentando o risco de uma disseminação silenciosa e da consequente urbanização da malária – hoje concentrada majoritariamente na região Amazônica.
Bactéria Wolbachia: uma solução inovadora
Diante da ameaça, ganha relevância o uso da bactéria Wolbachia como método de controle biológico. Presente naturalmente em cerca de 60% dos insetos, mas não no Aedes aegypti, ela é capaz de reduzir significativamente a capacidade de transmissão de vírus como dengue, zika e chikungunya. Estudos indicam que a mesma técnica pode ser eficaz contra o Anopheles stephensi, diminuindo seu potencial de transmitir malária. A aplicação no Anopheles darlingi, mosquito predominante no Brasil, ainda está em avaliação.
Iniciativas como o World Mosquito Program já implementaram o método no Brasil, com resultados positivos em cidades como Rio de Janeiro, Niterói e Belo Horizonte, onde se observou queda expressiva nos casos de dengue após a introdução de mosquitos com Wolbachia. A vantagem do método é sua autossustentabilidade: uma vez introduzida, a bactéria é transmitida naturalmente para as gerações seguintes de mosquitos, dispensando a necessidade de liberações contínuas.
Engajamento comunitário é crucial
A eficácia da estratégia depende fortemente do envolvimento das comunidades. Equipes de saúde e pesquisadores realizam reuniões, campanhas educativas e visitas domiciliares para explicar a segurança e os benefícios do método, combatendo desinformação e conquistando confiança. Apesar de não substituir medidas convencionais – como eliminação de criadouros e saneamento básico –, a Wolbachia representa uma ferramenta promissora e sustentável para o controle de arboviroses a longo prazo.