31 de julho de 2025
Sacerdotisa

Aos 91 anos, Mãe Mirian recebe título de Doutora Honoris Causa da Ufal

O reconhecimento, aprovado pelo Conselho Universitário, foi descrito pelos presentes como um ato de reparação histórica

Por Redação, com Ascom UFAL
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Mãe Mirian Yá Binan é a mais antiga sacerdotisa das religiões de matriz africana em Alagoas. - Foto: Foto: Izadora García

A ialorixá Mãe Mirian Yá Binan, a mais antiga sacerdotisa das religiões de matriz africana em Alagoas, recebeu o título de Doutora Honoris Causa da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). A solenidade aconteceu na última quinta-feira (28), no auditório da Reitoria, que ficou lotado para celebrar os 91 anos da líder religiosa, marcada por uma trajetória de resistência, militância social e defesa da diversidade étnico-religiosa.

Visivelmente emocionada, Mãe Mirian agradeceu a homenagem e destacou o simbolismo da conquista. “É grande a emoção que sinto, a ponto de me faltarem palavras. Gostaria de cumprimentar a todos os presentes. É difícil expressar em palavras a gratidão que sinto por todos. Este momento é profundamente simbólico, um testemunho de fé e respeito. É com grande emoção que recebo este título da Universidade”, declarou.

A cerimônia teve momentos de forte simbolismo cultural, com apresentações do Samba de Roda K’posú Betá e do Maracatu Yá Dandara. Em seu discurso, a ialorixá lembrou o episódio da Quebra de Xangô, em 1912, quando terreiros foram destruídos em Maceió, e mencionou a trajetória de Tia Marcelina, referência histórica do candomblé em Alagoas. “Reflito sobre a trajetória da Tia Marcelina e, observando o crescimento de nossa religião, sou tomada por gratidão. Reafirmo meu respeito e confiança em cada um de vocês”, disse.

O reconhecimento, aprovado pelo Conselho Universitário, foi descrito pelos presentes como um ato de reparação histórica. “Ao conceder este título, a Universidade não age por preferência ou adesão religiosa, mas, sim, como um gesto profundo de respeito à contribuição cultural, social e humana de Mãe Mirian, e a tudo que ela representa. Aqui honramos também nossos povos originários, os africanos, que aqui foram escravizados, e tantos outros povos que vieram de diversas partes do mundo”, afirmou o reitor Josealdo Tonholo.

O ato também contou com falas de professores, pesquisadores e lideranças religiosas, que ressaltaram a importância de Mãe Mirian na preservação e difusão da cultura afro-brasileira. “Devemos reconhecer sua importância para as resistências, representando Alagoas, o Brasil e todos os países que têm como pauta o combate à intolerância e ao preconceito. E somos nós quem ganhamos muito, aprendemos muito com a sua trajetória, Mãe Mirian, como seres humanos, para sociedades mais justas”, afirmou a professora Luciana Santana.

Para o babalorixá Wagner de Xoroquê, a homenagem é também um ato político. “Este é um ato de reparação, de justiça histórica, de reconhecimento à resistência secular de inúmeras mães, pais e filhos de santo. Que seus ensinamentos e exemplos guiem nossos caminhos, e que esta noite seja lembrada como um marco na luta por respeito, dignidade e igualdade para todos”, disse.