31 de julho de 2025
Anfíbios

Pererecas-de-vidro: anfíbios transparentes que vivem na Amazônia

Essa característica não é apenas estética: funciona como mecanismo de defesa, tornando o animal quase invisível entre as folhas

Por Redação
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Hyalinobatrachium aureoguttatum - Foto: Foto: Steven Guevara

As pererecas-de-vidro não têm relação com brinquedos ou peças de decoração: são anfíbios reais, pequenos e quase invisíveis, encontrados na Amazônia. O que chama atenção nesses animais é a pele transparente, tão fina que permite ver órgãos internos, incluindo o coração pulsando.

De acordo a bióloga especializada em ecologia, conservação de vertebrados terrestres e curadoria de coleções científicas de anfíbios, Malu Messias,  as pererecas-de-vidro não constituem uma única espécie, mas várias da família Centrolenidae. A transparência se deve à epiderme extremamente fina e à ausência de pigmentos: 

“A epiderme dos anfíbios é muito fina, o que facilita a respiração pela pele e também a transparência. Por isso dá para ver órgãos internos como intestino e coração pulsando”, explica a bióloga.

Essa característica não é apenas estética: funciona como mecanismo de defesa, tornando o animal quase invisível entre as folhas, especialmente considerando que a maioria das espécies não ultrapassa o tamanho de uma unha. Apesar do tamanho reduzido, os machos possuem vocalizações potentes, que podem ser confundidas com sons de morcegos por estarem em posições elevadas na vegetação.

Habitat e reprodução

As pererecas-de-vidro vivem em florestas da Amazônia e da Mata Atlântica, com registros confirmados em Rondônia, segundo a herpetóloga Dra. Kaynara Delaix Zaqueo. Entre as espécies registradas no estado estão:

  • Hyalinobatrachium munozorum – Porto Velho
  • Teratohyla midas – Porto Velho
  • Vitreorana ritae – Porto Velho
  • Teratohyla adenocheira – Campo Novo de Rondônia

São animais arborícolas, que dependem de matas ciliares (vegetação às margens de rios e lagos) para a reprodução. 

“Elas sobem em árvores cujas folhas pendem sobre os corpos d’água e desovam ali. Os ovos são envolvidos por uma substância proteica que gruda nas folhas. Quando se desenvolvem, os girinos caem diretamente na água”, explica Malu.

Os girinos permanecem no ambiente aquático até a metamorfose. Na fase adulta, tornam-se terrestres e se alimentam de insetos e pequenos invertebrados.

Em algumas espécies de pererecas-de-vidro, os machos desempenham papel ativo na proteção dos ovos, evitando predadores e o ressecamento.

Apesar da diversidade da família Centrolenidae na Amazônia, essas espécies enfrentam riscos semelhantes aos de outros anfíbios, como:

Destruição de habitat, especialmente das matas ciliares;

Contaminação de solos e rios por agrotóxicos;

Alta permeabilidade da pele, que facilita a absorção de poluentes.

Em Rondônia, os registros ainda são escassos, e as pererecas quase não aparecem nos levantamentos de herpetofauna — conjunto de anfíbios e répteis de uma região.

Segundo a herpetóloga Kaynara Zaqueo, é necessário investir em estudos específicos, sobretudo em áreas próximas a rios e de difícil acesso, onde essas pererecas costumam viver.