Retatrutida é vendida ilegalmente no Brasil antes de aprovação e preocupa Anvisa e especialistas
Medicamento experimental para obesidade ainda não foi aprovado em nenhum país, mas apreensões de produtos falsificados já ultrapassam R$ 11 milhões em 2026
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Mesmo sem autorização para venda em qualquer país, a retatrutida, medicamento experimental apontado como uma das maiores promessas para o tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2, já está sendo comercializada ilegalmente no Brasil. O avanço desse mercado clandestino levou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a emitir um alerta reforçando que a substância ainda está em fase de estudos clínicos e que os produtos vendidos atualmente podem sequer conter o princípio ativo anunciado.
Segundo a Anvisa, a única forma legal de receber retatrutida hoje é participando dos estudos clínicos conduzidos pela farmacêutica Eli Lilly, responsável pelo desenvolvimento da molécula. A empresa ainda não solicitou registro do medicamento no Brasil nem em qualquer outro país, o que significa que sua comercialização é proibida.
Apesar disso, canetas anunciadas como retatrutida têm sido encontradas em sites, redes sociais e no mercado ilegal. Dados da Receita Federal e da Anvisa mostram que apenas nos três primeiros meses de 2026 foram apreendidos mais de R$ 11 milhões em produtos irregulares na região de Foz do Iguaçu (PR), valor superior a todo o montante apreendido durante o ano de 2025.
Em nota divulgada nesta sexta-feira (24), a Eli Lilly informou que a retatrutida permanece em fase 3 de estudos clínicos e ainda não foi avaliada nem aprovada por nenhuma autoridade regulatória no mundo. A farmacêutica ressaltou que somente após a conclusão das pesquisas poderá solicitar o registro às agências sanitárias.
A retatrutida pertence à mesma classe de medicamentos que revolucionou o tratamento da obesidade, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, mas apresenta um mecanismo diferente. Enquanto a semaglutida atua sobre o receptor do hormônio GLP-1 e a tirzepatida combina GLP-1 e GIP, a nova molécula estimula simultaneamente GLP-1, GIP e glucagon, estratégia que pode potencializar tanto a perda de peso quanto os benefícios metabólicos.
Os resultados mais recentes das pesquisas têm chamado a atenção da comunidade científica. Em um estudo de fase 3 publicado na revista The Lancet, pacientes tratados com a dose mais elevada perderam, em média, 28,3% do peso corporal após 80 semanas. Em alguns casos, a redução ultrapassou 30 quilos, aproximando-se dos resultados obtidos com determinadas cirurgias bariátricas. Também foram observadas melhoras no controle do diabetes tipo 2, redução da circunferência abdominal, da pressão arterial e de indicadores associados ao risco cardiovascular.
Mesmo com esses resultados promissores, especialistas alertam que os riscos dos produtos vendidos clandestinamente são muito maiores do que os efeitos colaterais observados nos estudos oficiais. Segundo médicos da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), não há garantia sobre a composição das canetas comercializadas ilegalmente.
Além da possibilidade de não conterem retatrutida, os produtos podem apresentar contaminação bacteriana, substâncias desconhecidas, dosagens incorretas e falhas na conservação, aumentando o risco de infecções, reações alérgicas graves, pancreatite e até complicações que afetam órgãos como fígado, coração e cérebro.
A própria Eli Lilly informou já ter identificado produtos falsificados contendo contaminação bacteriana, endotoxinas e outras impurezas, reforçando que pacientes não têm qualquer garantia sobre o conteúdo ou as condições de fabricação desses medicamentos.
A Anvisa orienta que pessoas interessadas no tratamento da obesidade ou do diabetes utilizem apenas medicamentos regularmente registrados no país e prescritos por um profissional de saúde. Atualmente, opções aprovadas, como medicamentos à base de semaglutida e tirzepatida, podem ser indicadas conforme avaliação médica individual.