31 de julho de 2025
EXCLUSIVO

Empresa que recebeu R$ 26,7 milhões da Saúde de Alagoas é apontada pela PF como peça do suposto esquema de corrupção

Relatório da Operação Estágio IV afirma que CHMMED fez pagamentos relacionados ao imóvel de R$ 5,7 milhões, transferiu dinheiro para pessoas investigadas e mantinha contato direto com integrantes da Secretaria de Estado da Saúde

Por Redação
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O secretário Gustavo Pontes, ao lado do governador Paulo Dantas. - Foto: Assessoria

A empresa J.A. Maciel de Moraes ME – CHMMED Produtos Médicos Hospitalares, fornecedora da Secretaria de Estado da Saúde (Sesau) e citada no relatório da Operação Estágio IV, recebeu R$ 26.730.381,08 do Fundo Estadual de Saúde entre janeiro de 2023 e 8 de julho de 2026. Os dados constam no Portal da Transparência do Governo de Alagoas e foram levantados pelo portal Francês News.

Além do volume de recursos públicos recebidos, a empresa ocupa posição de destaque no relatório da Polícia Federal que investiga um suposto esquema de desvio de aproximadamente R$ 100 milhões na Saúde de Alagoas. Segundo a investigação, a CHMMED e seu então proprietário, José Adelson Maciel de Moraes, aparecem vinculados a pagamentos do imóvel de R$ 5,7 milhões registrado em nome do filho do secretário estadual da Saúde, Gustavo Pontes de Miranda Oliveira, além de diversas transferências financeiras para pessoas apontadas como integrantes do núcleo investigado.

Atualmente, a investigação tramita no Tribunal de Justiça de Alagoas (TJAL), após decisão do Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF-5), que reconheceu a predominância de recursos estaduais no caso.

R$ 26,7 milhões em quatro anos

O levantamento realizado pelo Francês News mostra crescimento contínuo dos pagamentos feitos à empresa durante o período investigado.

Em 2023, a CHMMED recebeu R$ 6.124.415,74.

No ano seguinte, os pagamentos aumentaram para R$ 7.529.930,55.

Em 2025, ano em que a Polícia Federal aprofundou as investigações da Operação Estágio IV, os repasses chegaram a R$ 10.310.079,62, o maior volume registrado.

Mesmo após a deflagração da operação, os pagamentos continuaram. Entre janeiro e 8 de julho de 2026, a empresa recebeu mais R$ 2.765.955,17.

Ao todo, são R$ 26.730.381,08 pagos pelo Fundo Estadual de Saúde em pouco mais de três anos e meio.

Empresa aparece em pagamentos do imóvel investigado

Segundo o relatório da Polícia Federal, durante a análise dos arquivos armazenados na nuvem eletrônica do secretário Gustavo Pontes foram encontrados comprovantes bancários indicando pagamentos feitos diretamente à empresa VO Participações Ltda., responsável pela venda do imóvel de R$ 5,7 milhões localizado em Porto de Pedras.

Os investigadores afirmam que José Adelson Maciel de Moraes, então sócio majoritário da CHMMED, realizou transferências de R$ 74.166,66, em 6 de maio de 2024, e de R$ 154.166,66, em 7 de junho de 2024, valores que coincidem com parcelas previstas no contrato de compra e venda do imóvel.

Além disso, a Polícia Federal identificou outro pagamento de R$ 154.166,66 realizado em 4 de dezembro de 2023 diretamente para a mesma empresa vendedora, após troca de mensagens entre José Adelson e Raul Pereira Lima sobre os dados bancários da VO Participações. Para os investigadores, a coincidência entre valor, beneficiário e contexto reforça a hipótese de que parcelas do imóvel foram pagas por terceiros ligados ao grupo investigado.

Transferências para investigados

O relatório também descreve uma série de movimentações financeiras envolvendo pessoas apontadas pela investigação como integrantes da organização criminosa.

Segundo a Polícia Federal, a CHMMED e José Adelson transferiram R$ 181 mil, em quatro operações realizadas entre junho de 2023 e maio de 2024, para Andreia Araújo Cavalcante, citada na investigação.

Outro levantamento aponta que a empresa e seu proprietário enviaram R$ 429.104,13 para Raul Pereira Lima em 17 transferências realizadas entre agosto de 2023 e agosto de 2024, com média aproximada de R$ 60 mil por mês.

Na avaliação da PF, a frequência e a regularidade dessas operações indicariam continuidade dos repasses financeiros.

Planilhas de empenhos e conversas

Outro trecho do relatório revela que a Polícia Federal encontrou, na nuvem eletrônica de Gustavo Pontes, planilhas intituladas "Pagamentos – 20.05.2024" e "Programação de pagamento maio".

Segundo os investigadores, nesses documentos aparecem lado a lado números de processos da Sesau, valores financeiros e nomes de pessoas físicas e jurídicas, entre elas Luciano André Costa de Almeida, assessor especial da Secretaria da Saúde, e a própria CHMMED, ambos identificados como credores de empenhos da pasta.

A investigação também reproduz conversas entre Luciano e Gustavo Pontes.

Em um dos diálogos, Luciano solicita que Gustavo realize um PIX de R$ 20 mil para uma terceira pessoa.

Minutos depois, segundo a Polícia Federal, Gustavo encaminha o comprovante da operação, no qual o pagador seria justamente a CHMMED, empresa pertencente a José Adelson.

Na sequência das mensagens, Luciano pergunta ao secretário se havia "notícias do empenho", expressão interpretada pelos investigadores como referência aos pagamentos da Secretaria de Estado da Saúde.

Para a Polícia Federal, essas conversas demonstrariam um canal direto de comunicação entre o gestor público, um assessor da Sesau e o empresário fornecedor do Estado.

Mudança societária levanta suspeitas

Outro ponto destacado pela investigação ocorreu em 22 de outubro de 2024, quando José Adelson transferiu integralmente as cotas da CHMMED para Wendle Ferreira Neves, instrumentador cirúrgico de 30 anos.

Segundo a Polícia Federal, Wendle reside em um imóvel simples em um bairro periférico de Maceió e apresentaria condição econômica incompatível com a propriedade de uma empresa que registrou lucro líquido superior a R$ 2 milhões apenas em 2023.

Por esse motivo, a investigação sustenta a hipótese de que ele tenha sido utilizado como interposta pessoa, permanecendo José Adelson como controlador de fato da empresa.

Conversas sobre dinheiro em espécie

O relatório também reúne dezenas de diálogos entre José Adelson e Raul Pereira Lima.

Em uma das mensagens, José Adelson afirma que faria um PIX para Raul porque seria mais fácil do que sacar um cheque.

Em outra conversa, ele orienta que os saques fossem feitos em valores inferiores a R$ 50 mil e comenta que "dinheiro em espécie hoje eu não tenho nada aqui comigo".

Há ainda mensagens em que o empresário demonstra preocupação em utilizar diferentes contas bancárias para evitar que as transferências fossem realizadas sempre para a mesma pessoa.

Segundo a Polícia Federal, o conjunto dessas conversas reforça a suspeita de pagamento de vantagens indevidas relacionadas aos contratos mantidos pela CHMMED com a Secretaria da Saúde.

Defesa e andamento do processo

A Operação Estágio IV foi deflagrada em dezembro de 2025 e resultou no afastamento temporário do secretário Gustavo Pontes.

Em fevereiro de 2026, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) suspendeu o afastamento ao acolher argumentos da defesa sobre supostas nulidades processuais no início da investigação.

Na sequência, o governador Paulo Dantas reconduziu Gustavo Pontes ao comando da Secretaria de Estado da Saúde.

As conclusões apresentadas pela Polícia Federal representam a linha investigativa adotada no inquérito e ainda serão submetidas ao contraditório e ao julgamento do Poder Judiciário.

Até o momento, Gustavo Pontes nega as acusações formuladas pela Polícia Federal e sustenta, por meio de sua defesa, que a investigação apresenta nulidades processuais que serão analisadas pelo Poder Judiciário.


Quanto a CHMMED recebeu da Saúde de Alagoas

AnoValor pago
2023R$ 6.124.415,74
2024R$ 7.529.930,55
2025R$ 10.310.079,62
2026 (até 8 de julho)R$ 2.765.955,17
TotalR$ 26.730.381,08
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