31 de julho de 2025
OPERAÇÃO MIRAGEM

PF aponta que Banco Digimais, de Edir Macedo, replicou estratégia usada pelo Banco Master

Investigação apura supostas fraudes contábeis, manipulação de balanços e operações financeiras que teriam criado patrimônio artificial na instituição ligada ao grupo de Edir Macedo

Por Redação
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Bispo Edir Macedo não foi alvo dos mandados de busca por residir no exterior - Foto: Reprodução

A Polícia Federal deflagrou nesta terça-feira (23) a Operação Miragem para investigar um suposto esquema de manipulação contábil no Banco Digimais, instituição financeira ligada ao grupo do bispo Edir Macedo. Segundo os investigadores, o banco teria adotado mecanismos semelhantes aos identificados anteriormente no Banco Master para ocultar dificuldades financeiras e transmitir ao mercado uma aparência de solidez patrimonial.

A operação cumpriu mandados de busca e apreensão, determinou a quebra de sigilos bancário e fiscal dos investigados e bloqueou até R$ 670 milhões em bens. As apurações têm como base relatórios produzidos pelo Banco Central.

De acordo com a investigação, dirigentes da instituição teriam utilizado fundos de investimento e operações contábeis para inflar artificialmente o patrimônio do banco e esconder sua real situação financeira.

COMO FUNCIONARIA O ESQUEMA

Segundo a Polícia Federal, a principal suspeita envolve a compra de créditos judiciais por valores relativamente baixos que, posteriormente, teriam sido reavaliados por cifras muito superiores.

Relatórios do Banco Central apontam que direitos creditórios adquiridos por cerca de R$ 71 milhões passaram a ser registrados por mais de R$ 741 milhões após sucessivas reavaliações realizadas por fundos ligados à estrutura do Digimais.

Na avaliação dos investigadores, a valorização teria criado um patrimônio artificial nos balanços da instituição.

Posteriormente, esses ativos teriam sido vendidos à própria controladora do banco por mais de R$ 741 milhões, em uma operação com pagamento previsto apenas para 2032 e sem ingresso imediato de recursos em caixa.

Para a fiscalização, a transação teria permitido manter nos demonstrativos financeiros valores que deveriam ter sido revertidos após determinação do Banco Central.

COMPARAÇÃO COM O BANCO MASTER

Um dos principais pontos da investigação é a semelhança entre a estratégia adotada pelo Digimais e o modelo utilizado pelo Banco Master.

Segundo a PF, ambas as instituições teriam recorrido a ativos considerados de rentabilidade incompatível com os padrões de mercado para ampliar artificialmente seus patrimônios e fortalecer a capacidade de captação de recursos.

Os investigadores afirmam que os bancos assumiam riscos elevados enquanto mantinham perante investidores e clientes a percepção de segurança proporcionada pela cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

RELAÇÃO DIRETA COM O MASTER

O Banco Master também aparece diretamente na investigação. Após a liquidação da instituição, foi identificada uma exposição de aproximadamente R$ 600 milhões do Digimais a carteiras de crédito ligadas ao banco.

Esses ativos passaram a ser analisados quanto à qualidade, regularidade documental e capacidade de recuperação, ampliando as preocupações dos órgãos de fiscalização sobre a saúde financeira do Digimais.

A investigação menciona ainda uma tentativa frustrada de aquisição do banco em 2025 por um grupo liderado pelo executivo Maurício Quadrado, que teve passagem pelo Master. A operação acabou vetada pelo Banco Central.

PAPEL DO FUNDO GARANTIDOR DE CRÉDITOS

Outro ponto sob análise envolve o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), entidade responsável por proteger depósitos bancários em caso de quebra de instituições financeiras.

Segundo a PF, uma eventual venda do Digimais ao BTG Pactual dependeria de uma injeção de aproximadamente R$ 7 bilhões por parte do FGC para cobrir déficits da instituição.

Os investigadores argumentam que isso poderia transferir ao sistema de proteção financeira prejuízos decorrentes da gestão do banco, preservando o patrimônio dos administradores e controladores.

QUEM SÃO OS INVESTIGADOS

Entre os alvos da operação estão executivos do Banco Digimais e dirigentes ligados à gestora de fundos que operava com a instituição:

  • Marcelo de Lima Brasil;
  • João Alves de Campos;
  • Rodrigo Ruggero;
  • João Luiz Urbaneja;
  • Thiago Rodrigues Urbaneja;
  • José Roberto Giancoli Filho;
  • Rodrigo Balassiano;
  • Banco Digimais S.A.;
  • ID Corretora de Títulos e Valores Mobiliários S.A.

O bispo Edir Macedo não foi alvo dos mandados de busca por residir no exterior. No entanto, a Justiça autorizou o bloqueio e o sequestro de bens atribuídos ao líder religioso e aos demais investigados.

Os materiais apreendidos serão analisados pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal, que darão continuidade às investigações sobre os crimes de gestão fraudulenta, falsidade contábil e operações financeiras supostamente irregulares no Sistema Financeiro Nacional.