Comidas típicas carregam histórias e mantêm viva a tradição do São João
Receitas atravessam gerações e garantem o sustento de comerciantes há décadas
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“Olha o mungunzá, hein? Vai passando o mungunzá!”
Há duas décadas, esse bordão ecoa pelas ruas de Maceió. É José Germano que, de bicicleta, percorre bairros da capital vendendo mungunzá e sopa de porta em porta. Neste período junino, histórias como a dele ajudam a preservar tradições e mostram como a gastronomia típica segue viva no cotidiano dos alagoanos.
A tradição veio de família. O pai já trabalhava com a venda de mungunzá e a mãe era camelô. Hoje, José mantém a atividade durante todo o ano, mas é em junho que as encomendas aumentam e reforçam a renda.
Aos 66 anos, a rotina começa cedo. A produção tem início às 11h e, por volta das 16h30, ele sai de casa para percorrer o trajeto que inclui a Ladeira do Óleo, no Jacintinho, Cruz das Almas, Jatiúca e o Conjunto Santo Eduardo, no Poço. O retorno acontece apenas à noite, e quase sempre sem sobras.
“Foi de pai para filho. Minha clientela é muito boa, uso produtos tradicionais e naturais. Todos os dias eu saio com 20 litros de mungunzá e 20 litros de sopa e volto para casa sem nada. O mungunzá me trouxe liberdade e segurança. Todos elogiam a qualidade e o atendimento. Para mim, isso representa história e tradição”, conta.
Mais do que vender alimentos, quem vive do milho mantém acesa uma herança cultural que atravessa gerações.
No bairro Graciliano Ramos, essa tradição também resiste há quase três décadas. É difícil passar pela Da Terra das Tapiocas sem sentir o cheiro de mungunzá, bolo de milho, canjica, pamonha e milho cozido. O negócio foi fundado em 1996 por Dona Lau (in memoriam), mãe de Jaqueline, que começou com uma pequena barraca montada na esquina da rua.

Jaqueline relembra que tudo começou com um investimento simples: cerca de R$ 50 para comprar um fogareiro, uma chapa e os insumos iniciais. Hoje, além da tapioca, carro-chefe da casa, o cardápio reúne produtos tradicionais do período junino.

Emocionada, ela conta que este é o primeiro São João sem a mãe.
“Ela faleceu em julho do ano passado. O milho não é apenas fonte de renda. Representa família, memória, afeto e prosperidade. Faz parte da nossa história desde a infância. Antes de cozinhar para outras pessoas, antes de virar comércio, minha mãe preparava milho para reunir familiares e amigos”, relembra.
Natural de Cupira, em Pernambuco, Aparecida Sales encontrou nas comidas típicas uma forma de sustento e também de manter viva sua ligação com a terra.
Há 20 anos, pontualmente às 16h, ela monta o carrinho em frente ao Hospital Unimed, no bairro do Farol. No cardápio, oferece canjica, pamonha, bolo de macaxeira, milho e mungunzá.
“Representa a minha vida, é meu trabalho. Eu vim da agricultura, da roça, plantando milho. Quem mexe com milho não sai mais dele, a gente se reinventa. Estou aqui de janeiro a janeiro, mas neste período tenho muita encomenda, o telefone não para de tocar e o lucro cresce. Em 20 dias de junho, a gente consegue o equivalente ao ano todo”, relata.
Cliente de Aparecida há cerca de quatro anos, Aline Barbosa destaca que consumir desses comerciantes também é uma forma de valorizar a economia local.
“A comida é excepcional. Ela prioriza a qualidade e cria vínculo com os clientes. Minha filha ama o milho, minha família adora a canjica, mas todos os produtos são deliciosos. O São João é especial, mas ela trabalha o ano inteiro e merece esse reconhecimento”, diz.
Para a jornalista e blogueira de gastronomia e turismo Nide Lins, as comidas típicas têm papel central na preservação da identidade nordestina.
“São João sem pamonha, canjica e bolo de milho não tem a mesma graça. Em junho, o Nordeste mostra sua força no saber e no fazer das tradições. Milho verde, mungunzá e canjica com canela aquecem o coração e movimentam a economia. As delícias juninas representam um reforço importante para quem trabalha com isso, mas também carregam memórias afetivas que nos conectam à infância, às festas em família e às tradições que atravessam gerações”, finaliza.