31 de julho de 2025
SUDESTE

ONG ligada à produtora de filme sobre Bolsonaro é alvo de operação por suspeita de desvio em contrato de R$ 157 milhões com a Prefeitura de São Paulo

Polícia Civil investiga supostas irregularidades em contrato de wi-fi gratuito; entidade é presidida por empresária que também produz longa sobre o ex-presidente

Por Redação
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A empresária Karina Ferreira da Gama, dona da ONG Instituto Conhecer Brasil e da empresa que produz o filme sobre Jair Bolsonaro - Foto: Montagem/g1/Reprodução/Redes Sociais

A Polícia Civil de São Paulo deflagrou nesta segunda-feira (1º) a Operação Wi-Fi Livre, que tem como principal alvo o Instituto Conhecer Brasil (ICB), organização social investigada por suspeitas de irregularidades em um contrato milionário firmado com a Prefeitura de São Paulo para implantação de internet gratuita em comunidades da capital paulista.

A entidade pertence à empresária Karina Ferreira da Gama, sócia da produtora Go UP, responsável pela produção do filme "Dark Horse" ("Azarão"), que retrata a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Segundo as investigações conduzidas pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de São Paulo, o contrato previa inicialmente investimentos de R$ 108 milhões anuais para a instalação de 5 mil pontos de wi-fi gratuito em regiões periféricas da cidade. No entanto, conforme os investigadores, sucessivos aditivos elevaram o valor total para R$ 157,1 milhões.

De acordo com o inquérito, o cronograma previa a instalação completa da rede até junho de 2025. Contudo, apenas 3.200 pontos teriam sido implantados até o momento. A suspeita é de que recursos públicos tenham sido repassados sem a correspondente execução dos serviços contratados.

Na operação desta segunda-feira, agentes cumpriram mandados de busca e apreensão em endereços ligados à ONG, à empresária Karina Gama e também na Secretaria Municipal de Tecnologia e Inovação, responsável pela fiscalização do contrato. Computadores, celulares, documentos, notas fiscais e registros financeiros foram recolhidos para análise.

Os investigadores apuram se pelo menos R$ 26 milhões teriam sido pagos sem a efetiva prestação dos serviços previstos no contrato. Há ainda suspeitas de sobrepreço, direcionamento no processo de seleção da entidade, pagamentos antecipados e subcontratações consideradas atípicas.

Segundo relatório policial, o Instituto Conhecer Brasil foi o único participante do chamamento público que resultou na contratação. A investigação aponta ainda que a entidade não possuía histórico relevante na área de telecomunicações antes da assinatura do contrato, atuando principalmente na realização de eventos culturais, religiosos e feiras literárias.

Outro ponto sob apuração envolve a apresentação de notas fiscais consideradas irregulares. Levantamentos realizados durante as investigações identificaram documentos cancelados, pagamentos em duplicidade e até notas emitidas pela própria entidade para justificar despesas do contrato.

Os investigadores também analisam a hipótese de que parte dos recursos públicos recebidos pela ONG tenha sido utilizada para financiar atividades privadas. Entre as linhas de investigação está a eventual destinação de valores para a produção cinematográfica ligada à empresária Karina Gama, tese que ainda será aprofundada durante a apuração.

Em nota, a Prefeitura de São Paulo informou que está colaborando integralmente com as autoridades e afirmou não ter identificado irregularidades no processo de contratação até o momento. O prefeito Ricardo Nunes (MDB) declarou que a administração municipal adotará medidas rigorosas caso eventuais ilegalidades sejam comprovadas.

Já a defesa da ONG não havia se manifestado oficialmente até a última atualização do caso.

As investigações seguem em andamento e, até o momento, não há decisão judicial que reconheça a prática de irregularidades por parte dos envolvidos. O objetivo da operação é reunir provas para esclarecer a execução do contrato e a aplicação dos recursos públicos destinados ao programa de conectividade.