31 de julho de 2025
‘Dá problema não’

Perfil vende atestados médicos falsos em Alagoas por R$ 40 e empresários denunciam golpe

Esquema criminoso usa nome de médica com CRM ativo em AL; reportagem do G1 Alagoas negociou documento falso e polícia ainda não investiga o caso

Por Redação
Publicado em
Grupo no WhatsApp vende atestado médico falso em Alagoas. - Foto: Freepik/Ilustração

A venda de atestados médicos falsos em Alagoas tem preocupado empresários e acendido um alerta sobre fraudes trabalhistas e crimes envolvendo falsificação de documentos. Um perfil em aplicativo de mensagens, identificado como “Rei dos Trampos”, estaria comercializando atestados falsificados por apenas R$ 40, utilizando inclusive dados de profissionais de saúde sem autorização.

Segundo a denúncia do portal G1 Alagoas, empresários relatarem prejuízos e desconfiança sobre a autenticidade de documentos apresentados por funcionários. Em um dos casos, uma empresária do setor gastronômico, em Maceió, afirmou ter demitido uma funcionária por justa causa após identificar inconsistências em um atestado médico apresentado.

Segundo ela, o documento indicava o CID A09, relacionado a diarreia e gastroenterite, mas os sintomas relatados pela funcionária não correspondiam ao quadro clínico descrito no laudo. “Depois de desconfiar, fui até uma unidade de saúde e comprovei que a funcionária não havia sido atendida lá. Ela foi demitida por justa causa”, relatou a empresária, que preferiu não se identificar.



Reportagem negociou atestado falso em nome de médica de Alagoas


Durante a apuração, a reportagem do G1 Alagoas entrou em contato com o responsável pelo perfil, identificado apenas como “Rei dos Trampos”, e negociou a compra de um atestado falso pelo valor de R$ 40.

O pagamento teria sido realizado via Pix para uma conta vinculada a um homem identificado como Wladimir Welyson Silva Nascimento. Após a transferência, o suposto vendedor enviou um atestado médico falsificado em nome de uma médica, utilizando o número real do CRM de Alagoas da profissional.

No documento, havia apenas uma pequena alteração — a última letra do nome —, estratégia que pode indicar tentativa de dificultar rastreamento ou responsabilização.

O atestado informava um suposto atendimento na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Trapiche, em Maceió, com afastamento médico relacionado ao CID A09. O suspeito ainda orientou que fosse feita uma assinatura “rabiscada” sobre o documento após a impressão, para dar aparência de autenticidade.

Ao ser questionado sobre possíveis problemas caso o documento fosse verificado pela unidade de saúde, ele minimizou os riscos. “Dá problema não. Eles nem sabem. Você vai fazer e vai querer fazer de novo porque dá certo”, afirmou.

Médica nega envolvimento e registra boletim de ocorrência


A médica citada no atestado falso negou qualquer ligação com o esquema criminoso. Em nota, ela informou que já adotou medidas legais após tomar conhecimento do caso. Segundo a profissional, um Boletim de Ocorrência foi registrado e o Conselho Regional de Medicina de Alagoas (CRM-AL) foi formalmente comunicado para apuração dos fatos e responsabilização dos envolvidos.

O CRM confirmou que o número utilizado no documento pertence à médica, mas informou que não irá comentar o caso.

Já a Polícia Civil de Alagoas informou que, até o momento, não recebeu denúncia formal sobre a venda dos documentos e, por isso, ainda não instaurou investigação.



Grupo reúne centenas de pessoas e atua em vários estados


Além dos atestados falsificados, o suspeito administra um grupo com quase 400 integrantes, onde também comercializa outros produtos, como camisas de clubes de futebol.

Segundo a apuração, a maioria dos participantes possui números com DDD de Alagoas, mas há integrantes de estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul.

Durante a conversa, o responsável pelo perfil afirmou atuar em diversos estados e disse que a procura pelos documentos seria alta em Maceió.

“Faço isso para vários estados. Quando estive em Maceió, foi sucesso. Quando eu volto para lá, o povo fica me ligando o tempo todo”, declarou.

Uso e venda de atestado falso são crimes


A legislação brasileira considera crime tanto a falsificação quanto o uso de documentos médicos falsos. Dependendo do caso, a prática pode configurar falsidade ideológica, uso de documento falso e estelionato, além de implicar em sanções administrativas e trabalhistas.

Funcionários flagrados utilizando documentos fraudulentos podem ser demitidos por justa causa, perder benefícios trabalhistas e até responder criminalmente. No caso de médicos envolvidos diretamente na emissão irregular de atestados, a pena pode incluir detenção, multa e sanções éticas junto aos conselhos profissionais.