Primeira trans brasileira a fazer cirurgia de resignação sexual morre aos 80 anos
Waldirene ganhou notoriedade nacional e internacional após passar pelo procedimento cirúrgico em 1971, aos 26 anos, durante a ditadura militar
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Waldirene Nogueira, reconhecida historicamente como a primeira pessoa a realizar uma cirurgia de redesignação sexual no Brasil, faleceu aos 80 anos nesta terça-feira (19), em Ubatuba, no litoral paulista. De acordo com informações da funerária responsável, o cerimonial de despedida foi programado para iniciar no Memorial Santa Izabel, em Lins, cidade do interior de São Paulo onde ela nasceu em 1945, seguido pelo sepultamento no Cemitério da Saudade do mesmo município. Waldirene ganhou notoriedade nacional e internacional após passar pelo procedimento cirúrgico em 1971, aos 26 anos, uma intervenção pioneira conduzida pelo médico paulista Roberto Farina em pleno período da ditadura militar.
A trajetória de Waldirene foi marcada pelo pioneirismo e pelo enfrentamento ao conservadorismo da época, transformando-se em um marco jurídico e médico no país. O caso ganhou repercussão pública depois que o jornal O Estado de S. Paulo noticiou a apresentação do estudo de caso de Waldirene pelo doutor Farina em um congresso de urologia. A publicação atraiu a atenção do então Procurador de Justiça de São Paulo, Luiz de Mello Kujawski, que denunciou o procedimento classificando-o como "mutilação genital". O questionamento legal resultou na abertura de um processo judicial contra o cirurgião em 1976 por crime de lesão corporal de natureza gravíssima, levando Waldirene a ser submetida a exames no Instituto Médico Legal (IML) para avaliar sua condição física. Mesmo com o laudo pericial apontando traços de ambiguidade nas características do corpo, a Promotoria insistiu na acusação de que o médico agira com violência. Roberto Farina chegou a ser condenado em primeira instância, mas acabou absolvido em 1979 após fundamentar sua defesa na literatura médico-científica sobre a transexualidade.
O desfecho do caso impulsionou a compreensão e o avanço científico acerca da transição de gênero e consolidou a figura de Waldirene como um símbolo de resistência para a comunidade trans. Em homenagem ao legado de ambos, o Núcleo de Estudos, Pesquisa, Extensão e Assistência à Pessoa Trans Professor Roberto Farina, vinculado à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), publicou uma nota oficial de pesar nas redes sociais. A instituição manifestou profunda admiração pela história de Waldirene, agradecendo publicamente a dignidade e a coragem com que ela enfrentou o aparato estatal e sustentou sua identidade e sua bandeira de luta por décadas.